segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Colheita e pós-colheita da Melancia



Colheita

A melancia atinge o ponto de colheita entre 28 a 45 dias após a fecundação das flores femininas ou hermafroditas, dependendo da cultivar e das condições climáticas. No Nordeste brasileiro, esse período corresponde a 65-75 dias após o plantio. Porém, reconhecendo-se a influência de diversos fatores sobre o ciclo da cultura, recomenda-se a adoção de outros indicadores de ponto de colheita. Os mais utilizados são:

a) Secamento da gavinha localizada no mesmo nó do fruto ou do pedúnculo do próprio fruto.

b) Mudança da cor da casca do fruto na região que se mantém em contato com o solo, que passa de branca para amarela com o amadurecimento.

c) A ressonância do fruto ao impacto deve ser grave e oca: som agudo e metálico indica que o fruto está imaturo.

d) Teor de sólidos solúveis mínimo de 9 ºBrix, conforme recomendação da União Europeia, devendo-se, entretanto, preferir valores a partir de 10 ºBrix, que são mais bem aceitos pelo mercado interno.

Os sólidos solúveis constituem importante critério para avaliação da qualidade dos frutos. Representa uma medida da concentração de açúcares e outros sólidos diluídos na polpa ou suco do fruto. Os açúcares correspondem à maioria dos sólidos solúveis existentes na polpa. Em melancia, o seu conteúdo varia de acordo com as regiões internas do fruto, ou seja, normalmente a polpa é mais doce no centro que na região próxima ao mesocarpo.

Outros indicadores importantes são: firmeza da polpa, acidez titulável e aparência externa e interna. Porém, os dois primeiros requerem instrumentos específicos, além de procedimentos que não são tão facilmente adotados pela maioria dos produtores. No que se refere à aparência dos frutos, a União Europeia definiu que as melancias devem apresentar as seguintes características mínimas de qualidade:

a) Inteiras.

b) Sãs, ou seja, isentas de podridões ou alterações que as tornem impróprias para consumo.

c) Limpas, praticamente isentas de matérias estranhas visíveis.

d) Praticamente isentas de parasitas.

e) Praticamente isentas de ataques de parasitas.

f) Firmes e suficientemente maduras, de forma que a cor e o sabor da polpa devem corresponder a um estado de maturação suficiente.

g) Não rachadas.

h) Isentas de umidade externa anormal.

i) Isentas de odores e/ou sabores estranhos.

Para uma boa determinação da data de colheita da melancia, deve-se efetuar uma amostragem de frutos. Nesta amostragem, deve-se cortá-los e examinar a cor da polpa e o teor de sólidos solúveis.

A colheita é manual e deve ser realizada nas primeiras horas do dia. O pedúnculo deve ser cortado com auxílio de uma lâmina afiada — faca ou canivete — cerca de 5 cm do fruto (Figura 1). Durante a colheita, devem ser tomados cuidados para que os frutos não sofram pancadas, pois isso facilita a entrada de micro-organismos, comprometendo a conservação pós-colheita.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 1. Colheita da melancia cv. Crimson Sweet com corte do pedúnculo cerca de 5 cm
do fruto, utilizando-se canivete.

Deve-se ter o cuidado para a correta identificação do ponto de colheita da melancia, pois, se for colhida antes de completar o amadurecimento na planta, não haverá o desenvolvimento do sabor característico do fruto maduro.

Cuidados e procedimentos após a colheita

Após a separação da planta, os frutos devem ser colocados ao longo da linha de plantio, para facilitar a retirada dos mesmos da área de cultivo. Os frutos devem ser levados do campo até o galpão de embalagem — packinghouse — em recipientes adequados e em meio de transporte compatível com cada perfil de produtor, podendo ser trator com carreta agrícola, carrinho de mão convencional ou com a caçamba adaptada para transportar uma maior quantidade de frutos, bem como com contentores plásticos.

Produtores que necessitam esperar o caminhão para levar os frutos para a comercialização (Figura 2), devem acondicioná-los sobre palhas, formando pequenas pilhas no campo, que devem ser conduzidas para comercialização no mesmo dia da colheita. É importante que as melancias sejam acondicionadas, o mais rápido possível, em local com sombra, seco e ventilado.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 2. Carregamento de frutos de melancia, cv. Crimson Sweet, com transporte a
granel, para comercialização no mercado interno.

Durante a colheita e o transporte, os frutos devem ser manuseados com cuidado a fim de evitar qualquer tipo de ferimento, que pode comprometer a aparência, a firmeza, o sabor e a vida útil da melancia. Os danos físicos depreciam severamente a qualidade dos frutos causando podridões.

O risco de perdas pós-colheita é alto e estas podem ser provocadas por danos físicos, utilização de embalagem inadequada, transporte e comercialização a granel (Figura 3), as más condições das estradas, a não utilização da refrigeração, toque excessivo por partes dos consumidores e exposição inadequada do produto.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 3. Aspecto geral do empilhamento
de melancia cv. Crimson Sweet em
condições ambiente em mercado
atacadista de Juazeiro, BA.


Conservação pós-colheita

O uso de tecnologias adequadas na pós-colheita durante o manuseio, processamento, armazenamento e transporte é tão fundamental quanto o manejo cultural. O incremento da vida útil deve ser necessariamente, acompanhado de redução nas perdas e da preservação da qualidade inicial do produto. Os cuidados na pós-colheita devem ser tais que permitam preservar a qualidade dos frutos por maior tempo.

Sabendo-se que a qualidade do fruto pode ser influenciada por fatores genéticos, fatores climáticos, concentração de nutrientes no solo, adubação, ataque de pragas e doenças, população de plantas daninhas, quantidade de frutos por planta e posição do fruto na planta, deve-se atentar para oferecer as condições que permitam a colheita de frutos de boa qualidade e o acondicionamento adequado que permita preservar essa qualidade pelo maior tempo possível. Com esta finalidade, as diferentes operações pós-colheita, como seleção dos frutos, classificação e armazenamento, devem seguir as recomendações específicas para a melancia.

Seleção dos frutos

Na seleção dos frutos deve ser considerado formato típico da cultivar, uniformidade de coloração da casca, tamanho e ocorrência de defeitos — cicatrizes, contusões, ranhuras, entre outros —, que não comprometam a aparência dos frutos.

Classificação de frutos

Há uma grande variação de tamanho e formatos de frutos e não existe uma classificação oficial que atenda às diferentes cultivares e mercados. Normalmente, os frutos são classificados, com base na sua massa média em grandes (maior que 9 kg) , médios (de 6 kg a 9 kg) e pequenos (abaixo de 6 kg). No mercado brasileiro, observa-se uma valorização de frutos com massa acima de 6 kg. Frutos do padrão da cv. Crimson Sweet com massa inferior são comercializados por centenas, a preço inferior. No entanto, por causa da redução do tamanho das famílias, há uma demanda por frutos menores. E contribui, também, com uma expressiva comercialização de frutos grandes fatiados nos supermercados.

Acondicionamento

As melancias devem ser acondicionadas de modo a ficarem convenientemente protegidas. Em geral, podem ser apresentadas em embalagens, incluindo as caixas com capacidade de suportar o peso dos frutos, no entanto normalmente, é feito a granel — empilhamento dos frutos na carroceria do transporte.

Os materiais utilizados no interior das embalagens devem ser novos e estar limpos e não devem provocar quaisquer alterações internas ou externas no produto. É autorizada a utilização de materiais que contenham indicações comerciais, desde que a impressão ou rotulagem seja feita com tintas ou colas não tóxicas. Os rótulos colocados individualmente nos produtos não devem, quando retirados, deixar marcas visíveis de cola, nem defeitos na casca. As embalagens ou lotes, no caso da comercialização a granel, devem estar isentas de corpos estranhos. As melancias expedidas a granel devem ser isoladas do piso e das paredes dos dispositivos de transporte através de um meio de proteção adequado, novo e limpo e que não transmita gosto ou cheiro anormal ao fruto.

Armazenamento

Em local à sombra, seco e ventilado, os frutos podem ser armazenados por um período de 2 a 3 semanas, dependendo do ponto de maturação, dos cuidados tomados na colheita, da temperatura e da umidade. As melancias são muito sensíveis a danos pelo frio, que se manifestam como manchas castanhas na casca, pitting, odor desagradável, perda de cor vermelha da polpa e incidência de doenças. A temperatura mínima de segurança é de cerca de 5 ºC, mas durante curtos períodos de tempo. Para o armazenamento prolongado, a melancia deve ser armazenada à temperatura mínima de 10 ºC. A umidade relativa recomendada é de 90%.

Mesmo sob condições ótimas de armazenamento, a melancia apresenta vida útil pós-colheita relativamente curta. Deve ser consumida 2 a 3 semanas após a colheita. O fruto possui uma reduzida taxa de produção de etileno, regulador de crescimento que estimula o amadurecimento dos frutos. Porém, a melancia tem alta sensibilidade ao etileno. Por isso, não pode ser armazenada em conjunto com outros frutos que produzam níveis moderados ou altos de etileno, o que lhe causaria desintegração da polpa, como consequência da aceleração da senescência ou envelhecimento.

Durante o armazenamento, as principais mudanças que levam à redução da vida útil da melancia são a perda de massa fresca, o decréscimo do teor de sólidos solúveis e da acidez titulável dos frutos, além de alterações na textura da polpa. Estas mudanças ocorrem rapidamente de forma que, em algumas cultivares de melancia, como ‘BRS Opara’, ‘Crimson Sweet’, ‘Pérola’ e ‘TopGun’, armazenadas a temperatura ambiente — aproximadamente 27 ºC e 55% UR —, a vida útil pós-colheita se limita a 16 dias.


domingo, 2 de fevereiro de 2020

Doenças da Melancia



Em função das condições climáticas e do período de exploração, diversas doenças poderão afetar a cultura da melancia, limitando o seu cultivo, em especial em áreas com baixo nível tecnológico, onde medidas de controle adequadas não são utilizadas. Mais de 30 doenças da melancia já foram registradas na literatura, causadas, principalmente, por fungos, bactérias, vírus e nematoides. O manejo adequado dessas doenças requer medidas preventivas e métodos que diminuam a sua disseminação. As principais doenças e distúrbios fisiológicos que afetam a cultura serão descritas, visando subsidiar a diagnose correta, de modo a definir as melhores estratégias para seu controle.


Doenças fúngicas

Oídio

É uma das principais doenças foliares da melancia e de outras cucurbitáceas, cultivadas ou silvestres, no Brasil e no mundo. Ocorre em praticamente em todos os locais onde a melancia é cultivada, sendo mais limitante nos locais em que predominam condições de altas temperaturas e baixa umidade durante a época de cultivo, regiões semiáridas. Pode haver uma redução no rendimento da cultura pela diminuição do tamanho ou do número de frutos, ou ainda pela redução do período produtivo das plantas. O fungo causador do oídio em melancia no Brasil é a espécie Sphaerotheca fuliginea (Schlechtend.:Fr) Pollacci, que é um parasita obrigatório e apresenta especialização fisiológica. Os sintomas aparecem em toda a parte aérea da melancia, mas as folhas são as mais afetadas. Inicialmente, tem crescimento branco pulverulento. Pode ser visualizado sobre a parte superior das folhas. Com o tempo, as áreas afetadas aumentam em número e tamanho podendo tomar toda a extensão foliar, por causa da coalescência das manchas. Começam nas folhas mais antigas e plantas mais velhas, no estádio de frutificação, quando estão mais suscetíveis. As folhas muito atacadas secam e a planta entra em senescência mais cedo, encurtando o seu período produtivo (Figura 1).

Foto: Rita de Cássia de S. Dias.
Figura 1. Área de melancia infectada com oídio e detalhes de sintomas e sinais.

Umidade relativa alta é favorável à infecção e sobrevivência dos conídios, entretanto, a infecção pode ocorrer em umidade de até 50%. Condições de clima seco favorecem a colonização, a esporulação e a dispersão do fungo. A faixa de temperatura ótima para a ocorrência de epidemias severas da doença varia de 20 oC a 27 oC. Entretanto, a infecção pode ocorrer na faixa de 10 oC a 32oC. Sobrevivência, entre estações de cultivo, ocorre em plantas voluntárias, como diversas plantas daninhas e outras cucurbitáceas cultivadas ou silvestres. O inóculo primário, para iniciar a doença, constitui-se de conídios que podem ser dispersos a longas distâncias pelo vento. Em cultivares muito suscetíveis, em condições ambientais favoráveis — especialmente, em baixa intensidade de luz —, sob cultivo muito adensado, a doença se desenvolve rapidamente e o seu ciclo completo pode levar de 3 a 7 dias.

O controle desta enfermidade deve iniciar pela escolha da variedade a ser plantada, preferindo sempre aquelas resistentes ou que apresentem certa tolerância ao patógeno. Além disso, recomenda-se iniciar, após o período de floração, aplicações de fungicidas de contato à base de enxofre e caso a epidemia evolua no campo, devem-se fazer pulverizações alternadas com fungicidas de diferentes grupos químicos registrados pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Míldio

É uma doença bastante comum em melancia no Brasil, com maior ocorrência nas épocas úmidas e de temperaturas amenas, quando poderá causar severas perdas, se não for controlada adequadamente. Ocorre em todas as regiões do País onde se cultiva melancia, seja em campo ou em estufas, mas é mais importante nas regiões Sul e Sudeste. A doença é causada pelo oomiceto Pseudoperonospora cubensis (Berk, M. A. Curtis) Rostovzev, que é um parasita obrigatório. O patógeno praticamente só ataca as folhas das cucurbitáceas. Os sintomas da doença são notados, inicialmente, na face superior das folhas na forma de pequenas manchas cloróticas ou amareladas, que se desenvolvem esparsamente no limbo e aumentam em frequência e tamanho com o tempo. As folhas mais velhas são as primeiras a apresentarem os sintomas da doença, que vão se espalhando para as mais novas. Com a expansão das lesões, estas podem se tornar amarelas ou amarronzadas e necróticas (Figura 2). Sob condições de alta umidade relativa, observa-se, na face inferior das folhas, nas áreas correspondentes às lesões, a produção abundante de estruturas reprodutivas do fungo. Em cultivares muito suscetíveis, as lesões se expandem rapidamente, coalescem e a folha pode secar completamente. A morte e a queda das folhas expõem os frutos à ação dos raios solares e estes podem ficar escaldados, perdendo o seu valor comercial A sobrevivência do fungo ocorre em diversas plantas daninhas ou em outras cucurbitáceas cultivadas ou silvestres. Dentro do campo de cultivo, o esporo é disperso pelo vento, respingos de água e pelo contato com trabalhadores, ferramentas ou implementos. Para a produção abundante de esporos, é necessário um período de pelo menos 6 horas de umidade relativa próxima a 100% e temperatura de 15 oC a 20 oC. Nestas condições ambientais, o ciclo da doença pode ser completado em até 4 dias.

Por ser uma doença devastadora, o seu controle deve ser preventivo, baseado em monitoramento climático, uma vez que o fungo é favorecido por temperaturas amenas e elevada umidade relativa. Portanto, quando as condições climáticas se tornarem favoráveis a sua ocorrência, deve-se iniciar rapidamente a aplicação de fungicidas de contato à base de cobre e utilizar fungicidas específicos registrados para a cultura, alternando-se os grupos químicos.

Foto: Flávio de França Souza.
Figura 2. Sintomas de míldio em melancia.

Crestamento gomoso das hastes

Esta doença é conhecida também como podridão-de-micosferela, cancro gomoso, podridão negra e cancro da haste. Encontra-se presente em todas as regiões produtoras de melancia, principalmente nas regiões tropicais, onde é considerada uma importante doença da cultura. O agente causal desta doença é o fungo Didymella bryoniae (Auersw.) Rehm, que pode infectar qualquer órgão aéreo da planta em todos os estádios de seu desenvolvimento. As mudas apresentam manchas escurecidas e arredondadas nos cotilédones, que passam ao hipocótilo, necrosando-o e circundando-o, causando posterior tombamento. Em plantas adultas, os sintomas variam de acordo com o órgão afetado. Nas folhas, ocorrem lesões angulares e necróticas. O colo das plantas afetadas apresenta zonas de cor parda e aquosa, sobre as quais se observam exsudatos. Nas hastes e suas ramificações, bem como no pecíolo, aparecem manchas encharcadas que depois necrosam, adquirindo uma coloração pardo-escura (Figura 3). Nos frutos, os sintomas se iniciam como pequenas manchas que se tornam marrons e exsudam uma goma, podendo, do mesmo modo que nas hastes, deixar evidente os sinais do fungo na forma de picnídios. Com o passar do tempo e de acordo com as condições do ambiente, as lesões podem se aprofundar e causar um apodrecimento parcial do fruto. No campo, D. bryoniae sobrevive, de uma estação para outra, nos restos de cultura de cucurbitáceas ou em outras hospedeiras, a exemplo de algumas plantas invasoras. O solo e as sementes são também Fotos de inóculo. A umidade é o fator mais importante para a ocorrência da doença. Ferimentos e injúrias causados por insetos são portas de entrada comuns para o patógeno. Temperaturas entre 20 oC e 28 oC e umidade relativa do ar elevada são favoráveis ao desenvolvimento do fungo no hospedeiro. A disseminação da doença no interior da lavoura ocorre pela água de irrigação e práticas culturais. A amontoa, que consiste em aproximar terra no colo da planta, e a capina podem causar ferimentos nas plantas favorecendo o aparecimento da doença.

Foto: Rita de Cássia de S. Dias (A e B) e Diógenes da Cruz Batista (C).
Figura 3. a) Sintomas de crestamento gomoso em melancia nas hastes e no b) colo da planta. c) Detalhe dos picnídios do fungo Didymella bryoniae.

No controle desta doença recomenda-se, inicialmente, escolher áreas livres do patógeno, eliminando-se, da área, restos de cultura e, sempre que possível, fazer a rotação de culturas, utilizando-se plantas não hospedeiras do fungo. Usar somente sementes certificadas, tratando-as preventivamente com fungicidas à base de thiram e captan. Manter o colo da planta livre de plantas daninhas ou folhas para favorecer boa insolação e aeração. Manejar adequadamente a irrigação do solo, evitando-se encharcamentos. Nos tratos culturais, evitar, ao máximo, ferimentos nas planta. Em caso de aparecimento da doença, utilizar produtos registrados para a cultura da grade de agroquímicos.


Murcha de Fusário

O agente causal desta doença é o fungo Fusarium oxysporum Schlechtend.:Fr f.sp. niveum (E. F. Sm) W. C. Snyder & H. N. Hans, que pode atacar as plantas de melancia em qualquer estádio de desenvolvimento. O fungo penetra pelas raízes, atinge os vasos lenhosos, acarretando em murcha e morte precoce das plantas em reboleiras. Esse processo se inicia pelo aspecto amarelecido da folhagem de algumas plantas, que são suscetíveis em quaisquer estádios de desenvolvimento. As plantas jovens que são atacadas no hipocótilo tendem a apodrecer nesta região, tombam e depois morrem. Em plantas adultas afetadas, os sintomas iniciais são reflexos, ocorrendo murcha da planta no período mais quente do dia por causa da obstrução dos vasos condutores pelo patógeno (Figura 4).

Em corte longitudinal da raiz pivotante e do colo da planta, percebe-se a presença de estrias avermelhadas no feixe vascular, indicando a colonização do fungo. Observa-e o engrossamento das raízes e desintegração dos tecidos. O patógeno é capaz de sobreviver no solo por longos períodos, na ausência de seus hospedeiros, mas pode sobreviver também em restos de cultura e em sementes por um longo tempo. O solo contaminado é a principal Foto de inóculo do fungo, onde permanece viável por mais de 10 anos, mesmo na ausência do cultivo de melancia. A disseminação do fungo ocorre por meio de sementes contaminadas, água utilizada na irrigação e respingos de chuvas, máquinas e implementos agrícolas. A sua penetração no hospedeiro pelas raízes ocorre na região de crescimento, sendo facilitada por ferimentos.

Foto: Rita de Cássia de S. Dias.
Figura 4. Sintoma de murcha de Fusarium oxysporum f.sp. niveum em melancia.

O controle desta doença deve iniciar pela escolha criteriosa da área a ser plantada, observando se não há histórico de ocorrência do patógeno em plantios anteriores. Em plantios em condução, demarcar os locais onde aparecerem plantas murchas, eliminando-as imediatamente da área, evitando-se, assim, a disseminação do fungo. Efetuar adequadamente a correção do solo, tanto em nutrientes e matéria orgânica, bem como corrigir adequadamente o pH, evitando-se solos ácidos. Utilizar, no plantio, apenas sementes certificadas, evitando-se ferimentos nas raízes e caule da planta durante os tratos culturais.

Tombamento

Conhecido também como damping-off, ocorre em plântulas de melancia, provocando a morte prematura, afetando o stand do plantio e consequentemente a produtividade. Os agentes causadores desta doença são fungos dos gêneros Fusarium, Rhizoctonia e Pythium, que provocam rápido apodrecimento do caulículo de plântulas e o consequente tombamento das mesmas. A lesão em fase inicial é, geralmente, uma podridão úmida envolvendo os tecidos da base do caulículo (Figura 5). Em seguida, ocorre a murcha e morte da plântula, ou mesmo falhas na emergência, observando-se falhas no estande do plantio. Solos mal drenados, matéria orgânica em excesso, alta densidade de plantio e uso intensivo do solo favorecem o aparecimento da doença. A disseminação do patógeno é auxiliada pela movimentação na área de cultivo, uso de implementos e ferramentas contaminadas e pelo excesso de irrigação. A disseminação a longas distâncias ocorre por meio de sementes contaminadas. A semeadura adensada e o excesso de irrigação favorecem a ocorrência dessa doença.

Foto: Carlos Antonio da Silva.
Figura 5. Sintoma de tombamento em plântulas de melancia.

No controle desta doença, utilizar apenas sementes certificadas e plantá-las em profundidade adequada, evitando-se semeaduras profundas. Manejar adequadamente a irrigação, evitando-se o encharcamento do solo e o acúmulo de água nas covas de plantio.

Mancha aquosa

É causada pela bactéria Acidovorax avenae subsp. citrulli (Schaad et al.) Willems et al. Os sintomas dessa doença podem ser observados nas folhas de plantas em diversas fases de desenvolvimento e nos frutos. Em plântulas infectadas, manchas encharcadas podem ser observadas nas folhas cotiledonares, podendo tornar-se necróticas. Nas folhas, os sintomas iniciam-se na forma de pequenas manchas escuras e angulosas. Os sintomas da mancha-aquosa são mais visíveis nos frutos surgindo, inicialmente, em pequenas manchas de aparência encharcada ou oleosa, com ou sem a presença de halo, que se expandem rapidamente. A área em torno do sítio de infecção inicial torna-se necrótica e, em estágio avançado da doença, pode ocorrer a ruptura da epiderme do fruto com exsudação de substância transparente. Raramente as lesões se estendem até a polpa do fruto, porém quando isto ocorre, a bactéria contamina as sementes. A bactéria geralmente é introduzida na área de plantio por meio de sementes contaminadas que resultarão em plântulas infectadas. A disseminação da bactéria para outras plantas se dá por meio de respingos de chuva e água de irrigação, e a penetração se dá por meio de ferimentos ou estômatos. Após a colheita, a sobrevivência do patógeno ocorre em restos de cultura, hospedeiros alternativos e plantas voluntárias. Por ser uma doença que é transmitida por semente, a medida de controle fundamental a ser adotada é a utilização apenas de sementes certificadas no plantio. Evitar o plantio em períodos chuvosos e com elevada umidade relativa do ar, bem como em áreas com histórico de ocorrência da doença em plantios anteriores, procedendo-se sempre à rotação de culturas, com espécies não hospedeiras. Não existe controle químico eficaz para o controle desta enfermidade.

Doenças causadas por nematoides

As plantas afetadas por nematoides normalmente apresentam um crescimento irregular e pobre, com uma tendência a murchar por desequilíbrios hídricos, acentuando-se durante a frutificação. Ao arrancar estas plantas, verifica-se as presença de galhas, engrossamentos localizados nas raízes, características desta doença. Dentre os nematoides capazes de parasitar as raízes de melancia, destacam-se os nematoides-de-galhas cujas espécies mais disseminadas são Meloidogyne arenaria, M. hapla, M. incognita e M. javanica. Atualmente, em regiões onde M. mayaguensis ocorre, como no Vale do São Francisco, no Nordeste brasileiro, sabe-se que esta espécie também pode infectar as raízes da planta. Além das espécies de Meloidogyne, Radopholus sp. e Xiphinema americanum são nematoides encontrados associados às raízes desta cultura.

A maioria dos dados sobre a importância dos fitonematoides em cucurbitáceas e demais olerícolas, frequentemente, origina-se de pesquisas e informações sobre Meloidogyne spp. Isso é atribuído a sua ampla distribuição nas regiões produtoras, bem como à sua capacidade de atingir níveis populacionais capazes de provocar danos em poucos ciclos de cultivo. A presença de galhas no sistema radicular é o sintoma primário associado com a infecção de Meloidogyne spp., decorrente do distúrbio de hormônios reguladores de crescimento (Figura 6). Na melancia, as raízes reagem à presença de Meloidogyne spp. pela formação de grandes galhas, cujos tecidos apresentam-se amolecidos, o que as difere de outras olerícolas , nas quais os tecidos das galhas permanecem firmes. Com frequência, essas galhas tomam toda a extensão do sistema radicular da melancia, que pode atingir mais de 1 m de comprimento. Não se tem observado diferença entre os sintomas causados pelas espécies distintas desse nematoide que, muitas vezes, encontram-se associadas num mesmo sistema radicular.

Exceção deve ser feita à M. hapla que induz a formação de pequenas galhas esféricas, em meio à intensa ramificação das raízes. Os sintomas na parte aérea manifestam-se por meio de deficiência mineral nas folhas e até murchamento nas horas mais quentes do dia. Isso se deve ao parasitismo desses patógenos no sistema radicular, ocorrendo a perda da eficiência das raízes infectadas em absorver água e nutrientes. Entretanto, esses sintomas não são específicos de infecções provocadas por nematoides, podendo também resultar da infecção por outros microrganismos, ou mesmo de desequilíbrio nutricional do solo. A avaliação segura das infestações dos nematoides-de-galhas no campo pode ser obtida no início da floração da cultura.

Foto: Rita de Cássia S. Dias (A) e José Mauro da Cunha e Castro (B).  

Figura 6. Raízes de melancia afetadas por Meloidogyne spp.

Os nematoides-de-galhas são parasitos obrigatórios, por isso, a ausência de plantas hospedeiras adequadas por períodos prolongados tende a levar ao seu desaparecimento. Na ausência de culturas suscetíveis, entretanto, eles frequentemente sobrevivem em plantas daninhas, e são muitas as que permitem a reprodução desses patógenos. A disseminação dos nematoides acontece quando juvenis de segundo estádio ou ovos são transportados de áreas infestadas para áreas não infestadas por meio da movimentação de partículas de solo. Sendo assim, dentro da lavoura, a água de chuva ou de irrigação, as máquinas e implementos agrícolas, o homem e animais podem carregar solo infestado de um local para outro. A grandes distâncias, porém, materiais de plantio contaminados são os maiores responsáveis pela disseminação de fitonematoides.

Os nematoides são patógenos difíceis de serem erradicados da área infestada. Por isso, uma das medidas de controle mais eficientes consiste em prevenir a introdução desses patógenos em áreas isentas. Após o surgimento, as principais medidas a serem adotadas para controle de nematoides em áreas cultivadas com melancia são: a) rotação de culturas empregando espécies resistentes, antagonistas ou más hospedeiras e que não permitam o desenvolvimento de altas densidades populacionais do nematoide; b) destruição de plantas infectadas quando da manifestação dos sintomas ou logo após a colheita; c) controle biológico podendo-se, inclusive, fazer a introdução do antagonista via sistema de produção de mudas; d) realizar o plantio em períodos mais frios, quando possível, para reduzir a infecção; estimular a redução do inóculo no campo com a utilização de adubação verde e de matéria orgânica para estimular o potencial antagonista do solo; d) fazer a solarização do solo em regiões com alta incidência solar e utilizar cultivares resistentes, quando disponíveis.

Doenças causadas por vírus

Vírus da mancha anelar do mamoeiro, estirpe melancia (Papaya ringspot virus – type watermelon, PRSV)

O mosaico da melancia ou mosaico comum é a principal doença de origem viral ocorrendo em espécies de cucurbitáceas, em regiões de clima tropical e subtropical, como o Brasil. Este vírus pode tornar-se limitante à produção de melancia, principalmente, quando a infecção das plantas ocorre nos estádios iniciais de desenvolvimento. Plantas afetadas pelo mosaico comum apresentam uma diversidade de sintomas como mosaico, embolhamento e deformação de folhas, com estreitamento da lâmina foliar que fica reduzida às nervuras principais (Figura 7). Plantas doentes apresentam também severo enfezamento. O PRSV-w pertence à família Potyviridae, no gênero Potyvirus. O vírus é limitado às cucurbitáceas, infectando 40 espécies, em 11 gêneros. Foi inicialmente identificado como sendo uma estirpe do vírus do mosaico da melancia e denominado mosaico da melancia 1 (Watermelon mosaic virus 1 – WMV-1). Entretanto, foi reclassificado como uma estirpe do vírus do mosaico do mamoeiro, baseado em resultados sorológicos e inoculação em plantas hospedeiras. é transmitido por cerca de 24 espécies de afídeos (pulgões) de maneira não persistente. Este modo de transmissão é altamente eficiente. Os pulgões adquirem as partículas virais ao se alimentarem por alguns segundos em planta infectada, durante a “picada de prova”. Tornam-se aptos a transmitir o vírus ao se alimentarem em plantas sadias. Não há relatos de transmissão por sementes. Pode ocorrer em associação com outros vírus como WMV-2, ZYMV e CMV.

Foto: Mirtes Freitas Lima.
Figura 7. Sintomas de PRSV-w em plantas jovens de melancia.

Vírus do mosaico da melancia (Watermelon mosaic virus - WMV).

Anteriormente denominado vírus do mosaico da melancia 2 (WMV-2), pode ocorrer em regiões de clima tropical, subtropical e temperado. No Brasil, foi identificado na década de 1980, infectando a cultura da abobrinha no Estado de São Paulo. O vírus tem sido mais comumente identificado na região Nordeste. Sintomas semelhantes àqueles causados pelo PRSV-w como mosqueado, mosaico com áreas verde mais claro e verde-escuro, rugosidade e malformação do limbo foliar, podem ser observados em plantas infectadas com o WMV (Figura 8). Plantas afetadas apresentam ainda redução na produtividade e na qualidade dos frutos. O vírus pertence ao grupo Potyvirus, na família Potyviridae. Diferente do PRSV-w que é restrito às cucurbitáceas, o WMV é capaz de infectar diversas espécies de plantas em 27 famílias, incluindo as cucurbitáceas, além de leguminosas, malváceas, quenopodiáceas e ornamentais. O vírus é transmitido por cerca de 38 espécies de afídeos, sendo Myzus persicae e Aphis spp. os principais vetores. A relação vírus/vetor é não persistente. Não é conhecida a sua transmissão pela semente.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 8. a) Sintomas nas folhas e em b) fruto de melancia de melancia causados por WMV.

Vírus do mosaico do pepino (Cucumber mosaic virus – CMV).

O vírus do mosaico do pepino é mais severo em cucurbitáceas cultivadas em regiões de clima temperado. é mais frequente e importante em outras espécies de cucurbitáceas, entretanto, o CMV infecta também plantios de melancia. O vírus provoca enfezamento da planta e mosaico, malformação de folhas que apresentam tamanho reduzido quando comparado às de plantas sadias.

Os internódios são mais curtos, assumindo aspecto de roseta. Plantas infectadas podem produzir frutos pequenos e deformados. Os sintomas causados por CMV podem ser menos severos em pepino e melancia. O CMV pertence ao gênero Cucumovirus, na família Bromoviridae. Pode infectar diversas espécies de plantas, cerca de 800 espécies em 85 famílias, incluindo mono e dicotiledôneas. O vírus é transmitido por mais de 60 espécies de afídeos, de maneira não persistente, sendo as espécies Myzus persicae e Aphis gossypii os vetores mais importantes. A transmissão do CMV em sementes de cucurbitáceas não ocorre, apenas em sementes de espécies de outras famílias.

Vírus do mosaico amarelo da abobrinha de moita (Zucchini yellow mosaic virus – ZYMV)

Foi detectado no Brasil pela primeira vez nos anos 1990, em abóbora, mas nos últimos anos, tem se identificado a presença do ZYMV com frequência cada vez maior. Folhas de plantas infectadas apresentam descoloração internerval, mosaico, embolhamento, necrose, redução e deformação do limbo foliar (Figura 9). Apresentam, ainda, severa redução no desenvolvimento e não produzem frutos ou, quando produzem, são malformados e podem apresentar rachaduras, tornando-se inviáveis para a comercialização. O vírus pertence ao grupo Potivirus, na família Potyviridae. é transmitido por cerca de nove espécies de afídeos de maneira não persistente, incluindo Aphis citricola, Macrosiphum euphorbiae e Myzus persicae. A transmissão do vírus em sementes de melancia não ocorre.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 9. Sintomas de descoloração internerval causado pelo ZYMV em plantas de melancia.

Vírus do mosaico da abóbora (Squash mosaic virus – SqMV)

Ocorre mais frequentemente nas culturas do melão e abóbora, nas quais assume maior importância econômica, entretanto, uma estirpe deste vírus infecta plantios de melancia. Plantas afetadas pela doença apresentam, além dos sintomas descritos anteriormente — mosaico, mosqueado e embolhamento, manchas cloróticas e enfezamento —, projeções marginais das nervuras, como resultado da interferência no desenvolvimento dos tecidos do limbo foliar. Em melancia, como resultado da infecção, há produção de menor número de frutos, atraso na maturação e malformação. O SqMv infecta principalmente as cucurbitáceas. Está classificado no gênero Comovirus, na família Comoviridae. Estirpes ocorrem na natureza e membros do grupo 1 (SqMV-1) infectam plantas de melancia. A transmissão do SqMV é feita por coleópteros dos gêneros Diabrotica e Epilachma, de maneira persistente ou circulativa. Neste tipo de transmissão, o vírus não se multiplica no vetor, entretanto, é retido pelos insetos por um determinado tempo, durante o qual transmitem o vírus ao se alimentarem em plantas sadias. A transmissão do tipo persistente não é tão eficiente quanto a não persistente do PRSV-w, CMV e WMV-2. Este fato pode limitar a sua disseminação em plantios no campo. Entretanto, a transmissão por sementes ocorre a uma porcentagem que varia entre 0,14% a 10%.

Clorose letal da abobrinha de moita (Zucchini lethal chlorosis virus – ZLCV)

Tem sido detectado com frequência, nos últimos anos, com incidência de até 100% em alguns casos. Os sintomas em plantas de melancia surgem na forma de mosaico, rugosidade e malformação de folhas, além de epinastia. Plantas afetadas apresentam necrose de folhas e da porção da haste próximo à extremidade do ramo. Também é observada redução dos internódios e a planta apresenta menor vigor e menor desenvolvimento. O ZLCV pertence ao gênero Tospovirus, família Bunyaviridae. É transmitido por insetos raspadores-sugadores, os tripes (Thysanoptera: Thripidae). A espécie Frankliniella zucchini transmite o ZLCV, entretanto, outras espécies de tripes podem, provavelmente, ser vetoras deste virus. O modo de transmissão é do tipo persistente propagativa, na qual o vírus se multiplica no inseto vetor que o transmite por toda a sua vida. Informações sobre a epidemiologia do SqMV ainda são escassas.

Controle

Por causa da inexistência de métodos curativos para o controle de viroses e, considerando-se que em plantas afetadas por estas doenças, não há como reverter o processo, as medidas que devem ser tomadas devem ser preventivas, visando evitar a ocorrência da infecção ou reduzir a incidência destas doenças na área e, consequentemente, minimização do seu efeito na produtividade e na qualidade dos frutos. Dessa maneira, a forma mais eficiente e econômica para o controle destas viroses é a resistência genética, com o plantio de cultivares resistentes. Entretanto, apesar da identificação de Fotos de resistência ao PRSV-w, WMV-2 e ZYMV, em melancia, não há cultivares comerciais resistentes a estes vírus.

As pulverizações com inseticidas para o controle de pulgões, visando limitar a disseminação desses vírus dentro do plantio, não são eficazes, por causa da rápida transmissão desses vírus por afídeos. As medidas recomendadas para o manejo de viroses em melancia são:

a) Plantar sementes com sanidade comprovada e evitar plantar sementes obtidas de plantios anteriores.

b) Dar preferência ao plantio de sementes de variedades resistentes ou tolerantes, quando disponíveis.

c) Selecionar a épocas para o plantio, que desfavoreçam a ocorrência de elevadas populações dos insetos vetores.

d) Evitar o plantio de melancia próximo a áreas de cucurbitáceas em produção infectados e/ou abandonados, principalmente, na direção do vento.

e) No caso do ZLCV, produzir mudas sob a proteção de tela, reduzindo as chances de infecção.

f) Eliminar plantas invasoras dentro e próximo da área de plantio, visando reduzir a sobrevivência de pulgões e dos vírus em plantas hospedeiras alternativas.

g) Inspecionar periodicamente a área de plantio, visando detectar focos iniciais de infecção.

h) Eliminar as plantas doentes para reduzir as Fotos de inóculo na área cultivada.

i) Estabelecer barreiras em volta da área de plantio, com o plantio de milho, por exemplo, para evitar a migração de vetores para dentro do cultivo.

j) Eliminar os restos de cultura logo após a colheita e também de plantios mais velhos antes do estabelecimento dos novos cultivos.

l) Fazer o controle químico dos vetores, no caso dos besouros e tripes para limitar a disseminação do SqMV e do ZLCV.


Distúrbios fisiológicos

Podridão apical

Também conhecida por podridão estilar e fundo preto, é um distúrbio fisiológico causado por deficiência de cálcio na planta, que se acentua em condições de altas temperaturas do ar, baixos teores de cálcio e baixa umidade no solo. Os sintomas da podridão aparecem em frutos de diversos tamanhos. A extremidade do fruto torna-se escura e, às vezes achatada, com uma podridão seca, acompanhada ou não por sinais de murcha (Figura 10). A presença desse tecido morto inutiliza os frutos para o comércio, pois, na parte necrosada, ocorre infecção por microorganismos. Algumas cultivares são mais sensíveis, como a ‘Charleston Gray’, e outras, mais tolerantes, como a ‘Crimson Sweet’. Em geral, as cultivares de frutos alongados são mais suscetíveis à ocorrência do distúrbio que as cultivares de frutos arredondados.

As medidas preventivas mais importantes para controlar esse distúrbio são:

a) Aplicação de cálcio ao solo na forma de calcário ou gesso.

b) Adubação balanceada.

c) Utilização de nitrato de cálcio ou biofertilizantes nas fertirrigações.

d) Controle das irrigações conforme o recomendado, principalmente na fase da frutificação.

e) Uso de cultivares menos sensíveis ao distúrbio.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 10. Fruto de melancia, cv. Charleston Gray com podridão estilar.

Rachadura dos frutos

Tem sido relacionada ao excesso de umidade disponível à planta, principalmente na fase de maturação e a temperaturas do ar elevadas — acima de 35o C —, especialmente quando ocorrem variações bruscas de umidade do solo em curto espaço de tempo. Também existem diferenças entre as cultivares quanto à predisposição ao rachamento, pois na melancia existe um gene que torna a casca mais vulnerável a essa característica.

Frutos com ocamento da polpa

Distúrbio que varia entre as cultivares e de causa desconhecida. Consiste na presença de espaços vazios na polpa, que vão desde pequenas até grandes fissuras. Esta desordem fisiológica tem sido observada, com frequência, em frutos de algumas cultivares triploides — melancia sem sementes . Acredita-se que fatores ambientais e aqueles relacionados ao manejo da cultura que contribuem para o crescimento descontínuo do fruto possam aumentar significativamente a incidência de frutos com esse distúrbio. Os fatores normalmente mencionados como promotores dessa desordem são o excesso de fertilizantes nitrogenados, água em excesso e alternância de períodos quentes e frios durante o crescimento dos frutos.

Queimaduras do sol

As queimaduras nos frutos causadas pela incidência direta dos raios solares, frequentemente, ocorrem em cultivares de casca verde escura (Figura 11), mas também são observadas em frutos de casca clara. Normalmente, estão associadas à deficiência de cobertura foliar — a desfolha provocada por doenças e pragas, por problemas nutricionais — bem como às características genéticas da cultivar que determinam uma baixa massa foliar. Portanto, o adequado manejo integrado de doenças e pragas, e nutricional das plantas evita a ocorrência da queimadura de sol nos frutos. É importante ressaltar que plantas vigorosas, com muitas folhas, além de atenuar os efeitos das queimaduras, que desqualificam os frutos à comercialização, normalmente resultam em maior produtividade.

Foto: Rita de Cássia S. Dias.
Figura 11. Fruto de melancia, cv. Sugar Baby com queimadura de sol.

Frutos deformados e queda de frutos

Esse distúrbio está relacionado com a deficiência de polinização. Recomenda-se a instalação de colmeias e evitar as aplicações de agrotóxicos, principalmente de inseticidas, no período matinal, quando ocorre maior intensidade de trabalho das abelhas, evitando-se a fuga ou morte dos agentes polinizadores da melancia.


Clima e Solos para a Cultura do Cará


O cará é um alimento feculento, muito consumido pelos habitantes de países tropicais. Na culinária pode ser utilizado como substituto da batata inglesa, batata doce e da macaxeira, com a vantagem de não se deteriorar logo após a colheita, pois depois de colhido se conserva a sombra, em estado natural, por até três meses, com pequenas perdas. E um alimento de fácil digestibilidade, indicado para dietas, de qualidades nutritivas, rico em carboidratos evitaminas do complexo B (PEANE, 1969; Albuquerque & Pinheiro, 1970).
O cultivo do cará merece especial atenção, devido a sua rusticidade e ao seu valor alimentício principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, as quais são carentes de alimentos energéticos. É uma opção para aumentar a receita dos habitantes de baixo poder aquisitivo, em especial, os da zona rural.

CLIMA
Em se tratando de uma planta de clima tropical, o cará se desenvolve bem em regiaes de clima quente e úmido, com latitude na faixa de 30 graus Norte e Sul da linha do equador (Silva, 1971b). As melhores condições climáticas para a cultura do cará são as que apresentam temperaturas médias anuais em tomo de 30°C, precipitação pluvial anual em tomo de 1.500 mm, com estação seca bem definida de dois a cinco meses (Monteiro & Peressin, 1993).

SOLOS
A parte comestível do cará são os tubérculos que se formam e crescem abaixo da superticie do solo. Durante o periodo de crescimento a cultura do cará requer bastante umidade no solo. Portanto, recomenda-se seu plantio em solos leves, de textura não muito arenosa, profundos, com boa drenagem, ricos em matéria orgânica e boa capacidade de retenção de umidade.
A unidade dos tabuleiros costeiros dos estados do Piaui e Maranhão soma uma área de 14.200 km2 (Embrapa, 1993) De um modo geral, os solos dessa área são de textura arenosa, profundos e de baixa fertilidade natural. Esses solos, quando corrigidos, podem ser explorados com a cultura do cará.
Devem-se evitar os solos de textura argilosa porque os tubérculos em solos pesados ficam deformados eas operações de colheitas, no período seco se tomam mais dificeis e dispendiosas. Além disso, há a inconveniência de ferimentos dos tubérculos, dificultando a conservação e a comercialização. Devem-se também evitar os solos declivosos, sujeitos a erosão.

PREPARO DO SOLO
O preparo do solo destinado a cultura do cará não difere daquele de outras culturas. Quando se trata de plantio comercial, e necessário um perfeito preparo do solo para proporcionar condiç6es favoráveis ao perfeito crescimento dos tubérculos. Consiste em arar o terreno auma profundidade em tomo de 30 cm para tomar o solo mais permeável e enterrar as espécies nativas ou restos de culturas e em seguida realizar a gradagem.

SISTEMA DE PLANTIO
Para facilitar o arejamento e drenagem do solo e evitar apodrecimento dos tubérculos, o cará deve ser plantado em covas altas ou matumbos, ou em camalhões.
No sistema de covas altas ou matumbos, com o auxilio de uma enxada ou cavadeira articulada abrem-se covas de 0,35 m x 0,35 m de largura por 0,30 m de profundidade. Em seguida, realiza-se a adubação química ou a orgânica, misturando o adubo à terra retirada da cova.
Posteriormente, retoma-se a terra a cova, formando a cova alta ou matumbo.
O sistemade camalhões ou leirões wde ser ~rocessadom anualmente ou mecanizado. No processo manual, dois operários com auxílio de enxadas, movimentando o solo de lados ouostos. levantam os camalhões ou leirões, com 30 a 35 cm de altura. No processo mecanizado, um trator de pneu awplado a um sulcador, ou arado de aiveca ou de disco levanta os camalhões ou leirões, com 30 a 35 cm de altura sem maiores dificuldades. Quando acoplado a arado de disco ou de aiveca é preciso um movimento de ida e volta do trator tombando o solo em sentido contrário.


domingo, 5 de janeiro de 2020

VARIEDADES DE CARÁ



Introdução

A família Dioscoreaceae foi reconhecida, inicialmente, por Brown em 1819 com o nome Dioscoreae (Burkill 1967 apud Carvalho, Texeira & Borges 2009). Atualmente são reconhecidos mundialmente, aproximadamente, oito gêneros, com cerca de 850 espécies, sendo 95% pertencente ao gênero Dioscorea (Marbberley 2008). De acordo com Cagnon et al. (2002), esta família possui representantes no mundo inteiro e, ainda se discute a sua origem e distribuição.

As espécies Dioscorea alata L. e D. esculenta (Lour) Burkill são originárias da Índia Central, enquanto D. hispida Dennst, D.pentaphylla L. e D. bulbifera L. tiveram a região Indo-Malaia como local de origem. São originárias da África D. dumentorum (Kaunth) Pax., D. cayenensis Lam., D. rotundata Poir. Já a D. trifida L.f. teria seu centro de origem na América Central e Sul (Abramo 1990; Cagnon et al. 2002; Carvalho, Teixeira & Borges 2009). Entretanto, Cáuper (2006, p.38) relata que a origem e distribuição geográfica de D. trifida é a Amazônia. Kirizawa et al. (2010) estimam que ocorram, no Brasil, 130 espécies de Dioscorea, único gênero da família presente em todas as regiões do país. Pedralli (1988) relata que a maioria das espécies ainda hoje é pouco estudada. Embora seja elevado o número de espécies, apenas 90 espécies de regiões tropicais servem para alimentação humana (Montaldo 1991).

Segundo Santos (2002), a cultura do cará (Dioscorea spp.) apresenta grande importância socioeconômica para a região Nordeste do Brasil, sobretudo para os Estados da Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Bahia e Maranhão, por constituir um negócio agrícola muito promissor dado a excelente qualidade nutritiva e energética de suas túberas e a grande utilidade para a alimentação humana. Como alimento, o cará é rico em diversas vitaminas do complexo B (tiamina, riboflavina, niacina), além das vitaminas A, vitamina C (ácido ascórbico) e carboidratos, principalmente, em amido, o qual é a principal reserva energética dos vegetais, como também, a principal fonte de carboidratos na dieta humana, além de apreciáveis teores de proteína e de gordura (Oliveira et al. 2007).

O cará representa grande importância na segurança alimentar por possuir características nutricionais excelentes e ser promissora pela sua produtividade resultante da alta adaptabilidade as condições edafoclimáticas das regiões brasileiras. Entretanto, a maioria das espécies, ainda hoje, é pouco estudada, principalmente a D. trifida em relação às outras espécies de Dioscorea comestíveis (Pedralli 1998 e Ramos-Escudero et al. 2010). De acordo com Castro (2011), a principal espécie cultivada no Amazonas é D. trifida, 48% do cará comercializado na capital provêm do município de Caapiranga. Além desta constatação, o município possui em seu calendário de eventos culturais a "Festa do Cará". Nesse sentido é possível constatar que o município se destaca como o maior produtor de cará no Estado do Amazonas e que, possivelmente, pode ser possuidor de uma elevada agrodiversidade relacionada a esta cultura. Diante deste contexto, este artigo tem por finalidade revelar a agrodiversidade e as formas de conservação do cará (Dioscorea spp.) em comunidades produtoras, no município de Caapiranga, Amazonas, utilizando-se ferramentas da etnobotânica, em busca de resgatar o conhecimento perceptivo e cultural dos agricultores sobre a cultura do cará, estas práticas locais servirão como alternativa de conservação dos recursos fitogenéticos relacionados à cultura do cará, e servirão como ferramenta para implementação de políticas de conservação, visando à permanência de uma diversidade, tanto cultural quanto biológica no meio agrícola amazônico.

Área de estudo

O estudo foi realizado nas comunidades - Patauá, Monte Alegre, Maloca e Vila Nova no município de Caapiranga, Amazonas (Fig. 1). Caapiranga localiza-se na margem esquerda do Baixo rio Solimões, dista da capital do estado 147 km. O município está assentado em uma área de terra-firme, sua área territorial é de 9.617 Km2, clima tropical chuvoso e úmido, com temperatura média de 27º C. Possui solo arenoso com bom índice de permeabilidade e floresta densa tropical.

O município de Caapiranga possui atualmente 45 comunidades, entretanto as que se destacam na produção de cará são: Patauá, Monte Alegre, Vila Nova e Maloca; as quais são constituídas pelos seguintes números de famílias 15, 18, 33 e 80, respectivamente (Castro 2011). Devido à proximidade das comunidades citadas uma das outras, os agricultores possuem peculiaridades socioeconômicas e culturais parecidas, como por exemplo, exercem uma pluralidade de atividades (caça, pesca, extrativismo vegetal e agricultura) que são fundamentais para complementar seus rendimentos e suas necessidades de sobrevivência, exceto a comunidade Patauá, Monte Alegre e Maloca que além das atividades já citadas realizam a piscicultura e apicultura. Na atividade agrícola, o cultivo do cará ocupa lugar de destaque para sobrevivência destas famílias. O cultivo do cará, denominado pela população de carazal, é uma tradição antiga, que é passada de pai para filho nestas comunidades. De acordo com a população pesquisada o cará já era cultivado pelos índios que habitavam aquela região os Ticunas e Muras. Nesse sentido todo o meio de produção desta cultura é de forma rudimentar itinerante com "corte e queima" sem o uso de insumos ou mecanismo convencionais, exceto o facão e a enxada.

Métodos e técnicas de abordagem

O método utilizado foi a análise participativa de quatro-células visando identificar os recursos biológicos que têm papel importante na segurança alimentar (Rana & Sthapit 2007). Este facilitou uma análise sistemática da extensão e da distribuição da diversidade dos cultivos locais de cará dos agricultores possibilitando junto com a etnobotânica, identificar as variedades locais de características únicas, as raras e as comuns nas roças dos agricultores.

Inicialmente foram contatados os presidentes de cada comunidade, os quais indicaram os agricultores que a mais tempo se dedicam ao cultivo do cará na região. Em seguida foi realizada uma reunião para expor aos participantes da pesquisa a natureza do trabalho, esta se repetiu outras vezes durante a pesquisa. Em uma das reuniões nas escolas das comunidades pesquisadas foram desenhadas no quadro branco, as quatro-células conforme o método descrito por Rana e Sthapit (2007, p.162), onde foram colocadas as principais variedades locais de cará mais citadas pelos agricultores, tamanho aproximado das áreas de cultivo, número de família e o tipo de intercâmbio de semente entre os agricultores. Além deste método, foram aplicados formulários e entrevistas.

O formulário teve como objetivo, levantar dados sobre as variedades locais, tais como: nomes dados pelos agricultores, dados etnobotânicos, etnofenologia, manutenção nas roças, utilidades na alimentação, comercialização. O tipo de formulário que foi aplicado se constitui da combinação de perguntas abertas e fechadas, este foi aplicado ao chefe de família ou responsável pela propriedade. A intensidade amostral de famílias pesquisadas foram de15 para cada comunidade que corresponde a 20% da Maloca, 50% da Vila Nova, 83% do Monte Alegre e 20% do Patauá referente do total de residência de cada comunidade pesquisada. Para a validação do formulário familiar foi utilizado também o formulário focal.

O formulário focal foi utilizado para coletar informações em grupos (em reuniões com os comunitários) e, consequentemente, foram comparadas e/ou combinadas com os elementos dos formulários familiar e das entrevistas individuais, o qual proporcionou um aprendizado das experiências e perspectivas dos participantes, permitindo a coleta de dados através da interação grupal.

Outra ferramenta que contribuiu eficazmente para a realização desta pesquisa foi a entrevista, que ocorreu de duas formas: semiestruturadas e não estruturada e teve, como finalidade, apreender e entender o conhecimento dos agricultores referentes à descrição das variedades locais, ou seja como eles distinguiam uma variedade de outra, e qual o seu conhecimento sobre a fenologia da planta, hábito alimentar referente ao uso da planta. Além de envolver informações a respeito do conhecimento da relação homem, planta e ambiente, obtido através do cotidiano e transmitido através de gerações. Nesta técnica de abordagem, foi utilizado gravador com a devida autorização dos participantes e diário de campo.

Para identificação e averiguação da fenologia do cará foram feitas coletas de variedade de cará para a formação de uma coleção de variedades locais (11 variedades com 10 repetições em cada bloco) de cará na Área de Produção Vegetal da Universidade Federal do Amazonas, as observações foram realizadas diariamente. Nas coletas botânicas para identificação, após a herborização, os vegetais foram depositados com as seguintes numerações (8584, 8586, 8587, 8588, 8589, 8590, 8591, 8592 e 8594) no Herbário da Universidade Federal do Amazonas (HUAM). Entretanto, sua identificação foi realizada no Herbário do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (EAFM) e no Instituto de Botânica-IBt, São Paulo-SP. É importante ressaltar que este trabalho para ser realizado foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (CEP/UFAM) e tem como número do protocolo CAAE-0316.0.115.000-09.

Fases de desenvolvimento do cará (Dioscorea trifida L.f.)

Os agricultores de Caapiranga desenvolveram "calendários mentais", segundo os quais são planejadas as atividades para o plantio do cará. Neste planejamento são definidos quando e quanto será plantado, o tamanho da área a ser ocupada, as variedades, entre outras decisões. Tais decisões são tomadas em acordo com a sazonalidade climática e a fenologia da planta, a partir da percepção e do conhecimento adquirido através do cotidiano e manejo do vegetal. Um exemplo disto é a decisão sobre o momento em que deve ser iniciada a limpeza da área para o próximo cultivo do cará. Cerca de 80% dos agricultores relataram que escolhem e iniciam a limpeza da área no término da floração, marcada pelo início do secamento das flores do cará, sete meses, após o plantio. Durante o ciclo de crescimento da cultura do cará observaram-se cinco fases distintas, que podem variar em função das condições de cultivo, espécie e genótipo:

a) Fase de dormência

A qualidade do material de plantio depende da forma como este material foi manuseado durante o seu período de dormência que, de acordo com dos dados coletados, varia de 40 a 80 dias após a colheita, quando o tubérculo é colhido com nove meses de idade. Uma técnica adotada pelos agricultores para prolongar a dormência dos tubérculos é a retirada dos brotos que surgem na epiderme dos tubérculos. Isto geralmente é realizado para atrasar o plantio por 10 a 20 dias.

A forma de conservação utilizada pelos agricultores para garantir a viabilidade dos tubérculos-sementes é a de levar estes para ambientes secos, arejados, na sombra, os quais podem ser a casa de farinha ou um barraco construído na lateral das áreas da roça. Porém, os ambientes mais utilizados são as capoeiras ou florestas próximas das áreas onde será o novo plantio. Nestes locais, os tubérculos ficam cobertos por folhas de bananeira ou palha, o que confere boas condições de acondicionamento por pouco tempo. Em épocas de temperaturas elevadas, é necessário que o plantio seja mais rápido. Estes locais (capoeira e floresta) são mais utilizados por reduzir o custo e o trabalho com o transporte do material de plantio (Fig. 2).


De acordo com os agricultores, o tubérculo só está maduro quando a ponta da área distal indica alterações na cor, que vai do claro ao escuro, e produz uma camada de tegumento (casca) mais grossa e suberizada. Os tubérculos colhidos frescos com a ponta da área distal de cor clara (Fig. 3) não podem brotar, estão na fase de dormência que pode durar até 80 dias, dependendo da idade em que foi colhido. Segundo os dados relatados e observados, o aparecimento de pequenas protuberâncias sob a camada da epiderme do tubérculo é uma indicação do fim da dormência e início da brotação.


b) Fase vegetativa

Inicia após a brotação com o surgimento das primeiras folhas, até a formação dos ramos primários e secundários. Esta fase ocorre de aproximadamente 80 a 150 dias, após o plantio (Tabela 1). É caracterizada por um aumento rápido e maciço da área foliar e determina o fim da dependência da planta do tubérculo-semente. As plantas atingem a autossuficiência (fase autotrófica), aproximadamente, seis semanas após surgimento da primeira folha. O desenvolvimento foliar é acompanhado pelo alongamento dos caules, aumento no número de ramos, completando a ramificação num período que varia de 120 a 150 dias, após plantio. Nesta fase também ocorre o crescimento do sistema radicular da planta e a decomposição do tubérculo-semente. No final da fase vegetativa, a planta tende a acumular carboidratos em excesso e estes acionam o início da tuberização com a decomposição total do tubérculo e o aparecimento do órgão de reserva que aparece em forma globosa, pequeno, com coloração clara em formas de dedos (Fig. 4), ligado ao caule aéreo rodeado por raízes, esta fase se encerra com o começo do florescimento, quando a planta atinge seu tamanho máximo. O tubérculo-semente fornece os nutrientes essenciais ao desenvolvimento da planta, após a brotação, terminando a função alimentadora, a partir do aparecimento dos ramos primários e do aumento da área foliar e do órgão de reserva, o qual originará os novos tubérculos.



c) Fase reprodutiva

Inicia a partir de seis meses após o plantio, com o aparecimento das flores e tubérculos em desenvolvimento e termina com o secamento das ramas aos sete meses. Os agricultores da comunidade da Maloca colhem o cará com sete meses de idade, época de aparecimento de algumas folhas com coloração amarela e flores com coloração cor de palha seca amarelada. De acordo com os dados, o cará colhido aos sete meses revela um tamanho bom para comercialização e maior vida útil de prateleira, porém não é bom para semente, quando comparado aos colhidos a partir de nove meses, após plantio.

d) Fase de secamento da planta ou maturação

É caracterizada pela morte da parte aérea da planta, com secagem e perda das folhas e ramos. Ocorre a partir do 7º mês, após o plantio, sendo severa no 9º mês. Embora a época de colheita seja em conformidade com 85% dos agricultores, aos nove meses de idade, 15% dos agricultores da orla do lago de Caapiranga colhem o cará no 7º mês. Todas as fases de desenvolvimento com seu respectivo tempo, estão na tabela 1.

Agrodiversidade de cará (Dioscorea spp.) no município de Caapiranga.

A identificação botânica dos carás produzidos em Caapiranga revelou que a principal espécie cultivada pelos agricultores (100%) é a Dioscorea trifida L.f., embora entre estes agricultores também houvesse alguns (12%) que cultivassem outras espécies, como a D. bulbifera L. Dioscorea trifida é uma planta trepadeira de caule volumoso e fino, que se enrola para a esquerda no sentido anti-horário, e que tem duas ou mais alas membranosas, geralmente em maior número na parte inferior do caule. Possui folhas pecioladas (pecíolos angulosos, que variam até 15 cm de comprimento), alternas, às vezes opostas com três a cinco lobos de forma acuminados ou oval-agudos (Fig. 5A), forma e tamanhos diversos, mais ou menos pilosas nas duas faces. As plantas são dioicas, com flores masculinas dispostas em racemos, formando uma inflorescência estaminada. As flores femininas com ovários densamente híspidos formam inflorescência. Nos ramos, surgem dois cachos simples da mesma axila formam uma inflorescência de coloração esverdeada de 4 a 6 mm de diâmetro (Fig. 5B). As inflorescências dão origem a infrutescências aladas, com fruto em forma de cápsula com três lobos, cada um, com duas sementes de, aproximadamente 27 mm de comprimento e 17 mm de diâmetro (Fig. 5C), contendo sementes orbiculares (Fig. 5D) (Corrêa 1978; Caúper 2006).


Dioscorea trifida possui tubérculos subterrâneos com forma ovoides, cilíndricos, arredondados ou diversificados que variam entre 10 a mais de 30 cm de comprimento, e com massas frescas entre 50 a 4.500 g e coloração da polpa roxa, branca ou amarela. Características essas que os colocam em categoria e classificações diferentes a partir da percepção local dos agricultores (Fig. 6A, B, C, D, E, F).


As roças dos agricultores familiares de Caapiranga possuem, segundo o levantamento etnobotânico, uma elevada diversidade interespecífica de cará. A partir da análise participativa de quatro-células, verificou-se, que há 15 variedades locais conhecidas e 11 cultivadas. Destacou-se a variedade cará-roxo-comum como a mais cultivada, em área, por todos os agricultores (100%), seguido do cará-branco (67%) em grandes áreas por poucas famílias (Fig. 6). As variedades com frequências intermediárias: cará-pata-de-onça (17%), cará-roxão (7%), cará-inhame (3%) e cará-rabo-de-mucura (3%) são cultivados em pequenas áreas por muitas famílias, apenas para subsistência (Fig. 6). Alguns agricultores colocam o cará-pata-de-onça e o cará-roxão, junto com o cará-roxo-comum, para comercialização. As variedades locais cará-durão (10%), cará-macaxeira (7%), cará-ovo-de-cavalo (7%), cará-miguel (3%) são as menos cultivadas, indicando risco de perda da diversidade destas variedades nestas roças (Fig. 7). Acredita-se que isto ocorra por estas variedades não serem utilizadas para comercialização, perdendo espaços em área cultivada para o cará-roxo-comum e cará-branco. Rana e Sthapit (2007) relatam que variedades locais cultivadas por poucas famílias, em pequenas ou em grandes áreas, são vulneráveis à erosão genética, tornando-se necessárias intervenções, tais como: melhoramento de plantas, adição de valor, formação de coleções de variedades locais nas comunidades rurais, reconhecimento e vinculação com o mercado para geração de renda, para garantir a continuidade de sua manutenção nas unidades produtivas dos agricultores familiares. Salienta-se também a importância de bancos de germoplasma ex situ e unidades de observação e/ou demonstração para conservação, produção de propágulos e intercâmbio destas variedades sob risco de erosão genética.


Os nomes dados pelos agricultores de Caapiranga às variedades locais têm uma particularidade diferente e estão relacionados às características do tubérculo, comparado através da percepção local: a vegetal, animal, a ações entre outros fatores ligados ao universo cultural destes agricultores, por exemplo, o cará-pata-de-onça é comparado com a pata de uma onça; o cará-miguel é denominado, desta forma, pois um agricultor, chamado Miguel, foi o primeiro a plantar e a disseminar esta variedade; assim como, o cará-alemão, cultivado e disseminado, por um agricultor, conhecido pelo apelido de Alemão.

Para Albuquerque (2008), os seres humanos sentem uma imensa necessidade de classificação para ordenar as coisas, objetos, animais e plantas, enfim, o ambiente que o cerca, categorizando-o, nomeando-o de modo a não se perder na complexidade. Relata ainda, que em todas as culturas, os seres humanos desenvolvem estratégias que lhes asseguram a organização e classificação do mundo vegetal, nomeando também, de forma inclusa dentro de uma hierarquia etnobotânica descritiva, onde presta especial atenção à classificação do mundo vegetal, empregando uma abordagem linguística e antropológica. Essa abordagem pode ser coletivamente denominada de etnotaxonomia, onde são registradas as categorias nominadas que revelam um sistema de classificação subordinando categorias de realidade, hierarquicamente ordenadas.

Denominando as variedades pelos agricultores, os nomes dados são generalizados e compartilhados no cotidiano e repassados através de gerações fora ou dentro das comunidades rurais amazônicas, como por exemplo, o cará-pata-de-onça conhecido por esta denominação na comunidade Maloca, também e conhecido com este nome em Vila Nova. Albuquerque (2008) relata que o mundo biológico é denominado em função da percepção dos seres humanos sobre as características, sejam elas intrínsecas (substâncias produzidas que, por exemplo, emitem odores típicos) ou extrínsecas (morfologia) e as denominações podem levar em consideração atributos morfológicos e simbólicos.

A pesquisa através dos elementos êmicos, sobre a agrodiversidade de cará nas roças, permitiu compreender a visão local sobre a noção das etnovariedades no mundo real e imaginário dos agricultores, esta visão está atribuída ao cotidiano e a vivencia dos agricultores. É importante ressaltar que todos os nomes atribuídos às variedades têm determinada história, e que o nome usado em uma variedade, na comunidade Patauá ou na Maloca, ou em qualquer local do Baixo Solimões, é o mesmo. Nesse sentido a transição de material genético entre os agricultores não se dá apenas na difusão deste, mas na identidade de cada variedade em cada cultura.

Características das variedades locais

A identificação botânica revelou que as variedades locais cará-roxo-comum, cará-branco, cará-roxão, cará-durão, cará-macaxeira, cará-pata-de-onça, cará-ovo-de-cavalo, cará-rabo-de-mucura, cará-miguel, cará-inhame, pertencem à espécie Dioscorea trifida L.f. Todas as etnovariedades locais citadas possuem folhas pentalobadas, com coloração abaxial, verde-claro e adaxial, verde-escuro, pecíolo com tamanhos variados e caule do tipo alado quadrangular (Tab. 2). Seus tubérculos possuem epiderme marrom-escura com poucas raízes, forma variada, polpa com coloração roxa e branca homogênea destaque para última, sendo apenas o cará-roxo-comum, cará-roxão, cará-durão de cor roxa. Vale ressaltar que as etnovariedades cará-miguel e cará-inhame possuem coloração roxa muito escura, que quando em forma de suco fica parecido com a bebida de açaí (Euterpe spp.). Em relação ao tamanho e peso dos tubérculos as variedades que se destacam são cará-pata-de-onça, cará-macaxeira que variam de 300 a mais de 500 g (Tab. 2). Embora todas as etnovariedades pertençam a espécies D. trifida, possuem características como a forma, coloração, sabor e tamanho que aos diferenciam e levam os agricultores a denominá-las conforme sua percepção, é possível que estas características diferentes sejam devido ao cruzamento que ocorrre entre as plantas nas roças. Entretanto, não há estudos sobre tal hipótese. Os descritores morfológicos revelaram que o cará-do-ar (D. bulbifera) foi o único que se manteve mais afastado das demais variedades por ser uma espécie diferente das demais, possui folhas inteiras, cordiformes e apresenta tubérculos aéreos e o fruto é uma cápsula oblonga, com lóculo contendo duas sementes aladas, na parte inferior (Tab. 2).

Outras variedades locais citadas pelos agricultores, no entanto não mais cultivadas, foram: cará-alemão, cará-creme, cará-espinho e cará-sucuriju. Embora muitos conheçam várias espécies e/ou variedades, poucos são os que as têm em suas roças o que mostra a Fig. 8. Nota-se que a variedade local, roxo-comum, está ganhando espaços em área plantada de outras variedades por ser a mais comercializada. A partir deste contexto, pode-se inferir que as roças de cará, em Caapiranga, possuem uma razoável diversidade de variedades locais. Contudo, se pôde constatar que as condições que levaram à criação e conservação desta agrodiversidade estão se modificando, ou seja, as roças ao longo do tempo foram sofrendo perda de diversidade de cará. Observou-se que tal problema pode estar relacionado à preferência dos agricultores pelas variedades de maior valor comercial e pela influência dos hábitos alimentares por apenas algumas variedades, como por exemplo, as entrevistas revelaram que 65% dos agricultores preferem mais o cará-roxo-comum devido ao seu sabor e a coloração e sabor que dá a carne ou ao peixe quando preparados com este tubérculo. Emperaire (2002) relata que, atualmente, a diversidade agrícola tradicional não responde mais às expectativas dos agricultores, cujas estratégias tradicionais de sobrevivência devem combinar objetivos de autonomia alimentar, com objetivos de inserção no mercado, causando, desta forma, automaticamente, uma redução na diversidade agrícola, ou seja, quando os agricultores priorizam mais o cará-roxo reduzem a área agrícola para as outras variedades.

Neste sentido, são necessários mais trabalhos técnico-científicos e de extensão, bem como, expedições de coleta de germoplasma para cultivos ex situ. Estudos etnobotânicos também são necessários para resgatar os conhecimentos populares na forma de produção, manejo, usos múltiplos destas culturas, bem como, estimular que as populações tradicionais (e as urbanas) continuem a valorizar os alimentos regionais. Os valores alimentícios dos produtos locais também precisam ser mais bem pesquisados e divulgados de forma a fornecer aportes para minimizar a erosão genética nas roças dos agricultores tradicionais.

Origem da variabilidade fenotípica das etnovariedades cultivadas

Quando questionados sobre a origem da variabilidade fenotípica das variedades cultivadas, 25% dos agricultores pesquisados responderam que em áreas cultivadas somente com a variedade de cará-roxo é comum que na colheita sejam obtidas plantas com entrecasca roxa e polpa branca, com textura da polpa mais solta ou com uma polpa roxa, muito clara quase branca. Outros responderam que observaram o surgimento de plantas com as características da variedade de cará-branco mesmo onde tenham plantado apenas tubérculos-semente da variedade cará-roxo. Entretanto, 54% dos agricultores responderam que não verificaram o surgimento de plantas com características distintas e 21% não souberam responder.

A variabilidade fenotípica entre as variedades pode estar associada à seleção natural ou produzida (artificial), variações ambientais (plasticidade fenotípica) ou com a própria segregação gênica na população (reprodução sexuada) (Tostain et al. 2007). Somente através de estudos com mar- cadores genéticos seria possível explicar a origem das variações intraespecíficas nas variedades locais de carás. Siqueira e Veasey (2009) relatam que Lebote et al. (1998) usando marcadores isoenzimáticos na espécie Dioscorea alata, identificaram que muitas exibiam variações diversas devido ao processo de seleção humana e às recombinações genéticas. Embora os agricultores tenham afirmado que não utilizam sementes-botânicas de cará para o plantio, será necessário averiguar se nas roças são produzidas sementes híbridas pelo cruzamento natural entre plantas que sendo viáveis poderiam dar origem a plantas com características distintas das variedades inicialmente cultivadas.

O aparecimento de plantas de cará-branco em áreas semeadas com cará-roxo, ou vice-versa, poderia ainda ser explicado pela prática de reutilização das áreas de plantio por dois ou mais anos. Esta prática pode possibilitar a regeneração de plantas, anteriormente cultivadas, pela presença no solo, de algumas partes vegetativas como, por exemplo, tubérculos, partes de tubérculos ou mesmo sementes remanescentes de ciclos de cultivo anteriores que possibilitariam o surgimento de plantas diferentes das que foram plantadas posteriormente. Embora os agricultores revelassem não utilizar sementes de cará para o plantio, acredita-se ter ocorrido o cruzamento entre plantas e o surgimento de novas variedades. No entanto, estudos sobre a biologia reprodutiva e a viabilidade de sementes de cará em condições controladas e em campo são necessários para verificação dessas hipóteses.

Conservação da diversidade de cará em roças de agricultores tradicionais

Embora o contexto anterior revele a perda de diversidade de variedade, ainda, pode-se constatar entre os agricultores pesquisados, a circulação de tubérculos-sementes, pelo menos das demais variedades (Fig. 7), pouco ou não comercializadas. Este intercâmbio tem papel fundamental no interior dessas comunidades produtoras de cará, pois servem como estratégia de conservação e difusão do germoplasma das variedades locais. Pode se inferir que as estratégias de conservação realizadas pelos agricultores tradicionais pesquisados, envolvam cinco pontos importantes: o conhecimento tradicional, os ecótipos (capoeira, floresta e roça), a diversidade de variedade, as relações sociais de circularidade das variedades e os múltiplos usos das variedades. As roças pesquisadas possuem características locais adequadas para pesquisa com diversidades de variedade interespecífica relacionadas ao cultivo do cará, podendo este, ser consorciado ou não com outras culturas. Com relação à manutenção da agrodiversidade pelos agricultores, 60% mantém as variedades locais como alternativas de consumo, 30% para ter opções de venda e troca e, 10% conservam por sua ação medicinal, como por exemplo, a variedade cará-roxão que é utilizado como depurativo e antianêmico. Ramos-Escudero et al. (2010, p.745-752) relatam que além de seu interesse nutricional, várias propriedades funcionais têm sido relatadas para os tubérculos de Dioscorea. Os tubérculos de cará têm apresentados significativas atividades antioxidantes contra os radicais livres, anti-hipertensivas, antitumoral e anti-inflamatório. Trabalhos realizados por estes autores detectaram doze pigmentos antociânicos em tubérculos fortemente coloridos de D. trifida, corriqueiramente consumidos pelos povos da floresta peruana.

O sentido de variedade local revela diversos níveis de homogeneidade biológica relativa à cultura. Dados coletados nas feiras revelaram que o cará é conhecido como roxo ou branco pelos consumidores, enquanto que nas roças, os agricultores reconhecem diversas variedades. As variedades que possuem aparência e sabor semelhantes são classificadas, nomeadas e agrupadas em diversos tipos. A denominação de cada variedade local se dá de acordo com a percepção do agricultor sobre a planta ou parte da planta como, por exemplo, o tubérculo.

Como foi dito anteriormente as variedades que se destacam em quantidade nas roças dos agricultores pesquisados são as direcionadas para comercialização como o cará-roxo-comum, cultivado por 100% dos agricultores e o branco por 67%. Nesse sentido verifica-se que há variedades em risco, principalmente as que não são utilizadas para comercialização. Pode-se inferir que a diversidade agrícola quando não responde a expectativa do agricultor, pode ser reduzida. Nesse sentido, é necessária a condução de pesquisas e ações que visem combinar conservação das espécies, autonomia alimentar e inserção no mercado dos agricultores tradicionais. Tais ações devem ser precedidas de estudos sobre a variabilidade genética nas roças de cará e sobre o etnoconhecimento dos agricultores tradicionais. Além disso, a criação de bancos comunitários das variedades locais seria fundamental para a conservação in situ/on farm e para estudos de diversidade genética e evolução. Acredita-se que, a partir dessa perspectiva, possam ser criados programas de conservação efetivos em nível local e regional para cultura do cará.