domingo, 24 de maio de 2020

Variedades de Cenoura



Normalmente, são encontradas no mercado sementes de várias cultivares de cenoura desenvolvidas tanto por instituições oficiais de pesquisa quanto por instituições privadas (Tabela 1)

Tabela 1. Principais cultivares de cenoura disponíveis atualmente no mercado e suas características
Cultivar
Formato das raízes
Ciclo
(dias)
Comprimento das raízes
(cm)
Resistência(R) ou Tolerância (T) à doenças
Clima mais favorável para cultivo
Brasília
Cilíndrica
90-100
15-22
R - queima das folhas
T - nematoide
ameno para quente
Kuronan
Ligeiramente cônica
100-120
15-25
R - queima das folhas
ameno para quente
Nova Kuroda
Ligeiramente cônica
100
15-18
R- alternária
ameno para quente
Prima
Cilíndrica
90-100
16-18
R - queima das folhas
ameno para quente
Nova Carandaí
Cilíndrica
80-90
18-20
R - alternária
ameno para quente
Nantes
Cilíndrica
90-110
13-15
-
frio
Harumaki Kinko Gossum
Ligeiramente cônica
85-110
16-18
T- queima das folhas
ameno
Tropical
Ligeiramente Cônica
80-90
20-25
R - queima das folhas
ameno para quente
Alvorada
Cilíndrica
100-105
15-20
R - queima das folhas
R - nematóides
ameno para quente
Fonte: Embrapa Hortaliças e Catálogos de Companhias Produtoras de Sementes

O consumidor brasileiro tem preferência por raízes de cenoura cilíndricas, lisas, sem raízes laterais ou secundárias, uniformes, com comprimento e diâmetro variando respectivamente entre 15 a 20 cm e 3 a 4 cm. A coloração deve ser alaranjada intensa , com ausência de pigmentação verde ou roxa na parte superior (ombro) das raízes.

Cada cultivar tem características próprias quanto ao formato das raízes, resistência às doenças e, principalmente, quanto à época de plantio. Esta última característica permite que se produza cenoura durante o ano todo na mesma região, desde que se plante a cultivar apropriada às condições de clima predominantes em cada época.

Cultivares e suas principais características

As principais cultivares de cenoura disponíveis no mercado podem ser agrupadas nos seguintes grupos:

Nantes

Cultivar de origem francesa;
As plantas têm folhagem verde escura e podem atingir até 30 cm de altura;
As raízes apresentam formato cilíndrico com 15 a 18 cm de comprimento, 3 a 4 cm de diâmetro e coloração alaranjada escura;
Esta cultivar é muito sensível às doenças de folhagem, não sendo recomendável o seu cultivo em estação chuvosa e quente;
Por sua exigência em temperaturas amenas é recomendada para plantio em época fria;
Seu ciclo vegetativo é de 90 a 110 dias;
Existem diversas cultivares deste grupo disponíveis no mercado.

Kuroda

As plantas apresentam folhagem vigorosa, com até 50 cm de altura;
As raízes são cônicas, de coloração vermelha-alaranjada e apresentam a película bastante delicada;
O comprimento das raízes varia entre 15 e 20 cm;
As cultivares deste grupo apresentam tolerância a temperaturas mais elevadas e resiste bem às doenças de folhagem quando semeadas no verão de regiões quentes;
Elas não são recomendadas para semeaduras sob condições de clima ameno pois suas características não permitem competir em qualidade com as do grupo Nantes;
Seu ciclo vegetativo é de aproximadamente 100 dias;
Diversas cultivares deste grupo estão disponíveis no mercado.

Brasília

Resultou de um programa de melhoramento de cenoura para cultivo no verão desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisas de Hortaliças - EMBRAPA-Hortaliças e Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" - ESALQ (Figura 1);
As plantas têm porte médio de 25 a 35 cm, com folhagem vigorosa e coloração verde escura;
As raízes são cilíndricas, com coloração alaranjada clara e baixa incidência de ombro verde ou roxo;
O comprimento varia de 15 a 22 cm e o diâmetro de 3 a 4 cm;
É resistente ao calor, apresentando baixos níveis de florescimento prematuro sob condições de dias longos;
Tem alta resistência de campo à queima-das-folhas, produzindo em média 30-35 t/ha nas condições de verão;
A colheita pode ser efetuada de 85 a 100 dias após a semeadura;
É recomendada para semeaduras de outubro a fevereiro nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, embora esteja sendo utilizada, com sucesso, em todo o país;
Existem diversas cultivares deste grupo disponíveis no mercado.

Foto: Carlos Solano
Fig. 1. Cultivar Brasília

Outras cultivares importantes
  
Kuronan

Resultou também de um programa conjunto de melhoramento de cenoura para cultivo no verão, desenvolvido pela ESALQ e a EMBRAPA-Hortaliças (Figura 2);
As plantas têm folhagem vigorosa, com coloração verde clara brilhante, com 35 a 45 cm de altura;
As raízes são ligeiramente cônicas de coloração alaranjada-escura e baixa incidência de ombro verde ou roxo;
O comprimento das raízes varia entre 15 e 20 cm e o diâmetro entre 3 e 4 cm. Resiste bem ao calor, apresentando baixos níveis de florescimento prematuro sob condições de dias longos;
Apresenta boa resistência de campo à queima-das-folhas, e produz em média 30 t/ha quando semeada em estação quente e chuvosa;
A colheita inicia-se 95 a 120 dias após a semeadura;
É recomendada para semeaduras de novembro a março na região Sudeste do Brasil.

Foto: Carlos Solano
Fig. 2. Cultivar Kuronan

Tropical

Cultivar desenvolvida pela ESALQ;
As plantas têm folhagem verde escura e apresentam mediana resistência de campo à queima-das-folhas;
As raízes são ligeiramente cônicas;
Esta cultivar é muito sensível ao florescimento prematuro sob condições de dias longos, apresentando pequena exigência em frio para diferenciação da gema floral. Por isto, a produção de raízes deve ser programada para estação fria e/ou sob condições de dias curtos.

Prima

Cultivar desenvolvida pela Agroflora para o plantio de primavera e outono (semeaduras de meados de setembro até início de novembro);
Apresenta ótimo vigor de folhagem, boa resistência à queima-das-folhas e ao florescimento prematuro;
As raízes tem formato cilíndrico, com boa coloração externa e interna das raízes, e, baixa incidência de ombro verde ou roxo;
O ciclo normal desta cultivar é de aproximadamente 100 dias.

Nova Carandaí

Cultivar desenvolvida pela Agroceres;
Apresenta comprimento de folhagem de 40 - 50 cm, ciclo vegetativo de 80 a 90 dias, e resistência à queima-das-folhas;
As raízes são de cor alaranjada com formato cilíndrico, variando de 16 a 18 cm de comprimento;
Apresenta tolerância ao calor.

Harumaki Kinko Gossum

Cultivar de origem japonesa com ampla adaptação climática;
Apresenta baixos níveis de florescimento e relativa tolerância à queima-das-folhas, produzindo bem em condições de alta e baixa temperatura;
Possui plantas vigorosas de porte alto, com 40 a 50 cm de altura, e coloração de folhagem verde clara;
As raízes são cilíndricas com ombro largo, ponta arredondada, comprimento variando de 16 a 18 cm, coloração laranja-avermelhada;
A colheita começa aos 90 dias após a semeadura.

Alvorada

Cultivar desenvolvida pela Embrapa Hortaliças;
As plantas tem porte médio 30 a 35 cm, com folhagem vigorosa e coloração verde escura;
As raízes são cilíndricas, com coloração alaranjada intensa, muito baixa incidência de ombro verde ou roxo;
O comprimento varia de 15-18 cm com diâmetro de 3 a 4 cm;
As raízes apresentam uniformidade de coloração entre o xilema e o floema, e teor de carotenóides totais da ordem de 12 mg/100 gr de raiz;
É resistente ao calor, apresentando baixos níveis de florescimento prematuro sob condições de dias longos;
Tem alta resistência de campo à queima-das-folhas e aos nematóides formadores de galhas, produzindo em média 30-35 t/ha nas condições de verão;
A colheita pode ser efetuada de 100 a 105 dias após a semeadura;
É recomendada para semeaduras de outubro a fevereiro nas regiões sul, sudeste e centro-oeste, muito embora esteja sendo utilizada em outras regiões do país. (Figura 3)

Foto: Paula A. Cochrane
Fig. 3. Cultivar Alvorada

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Definição e Características das Hortaliças Tradicionais (PANCS)


Definição e Características das Hortaliças Tradicionais

As hortaliças tradicionais, muitas vezes referenciadas por hortaliças não convencionais no meio técnico-científico, são aquelas com distribuição limitada, restrita a determinadas localidades ou regiões, muitas vezes exercendo influência na alimentação e na cultura locais. Além disso, são espécies que não estão organizadas enquanto cadeia produtiva propriamente dita, diferentemente das hortaliças convencionais (batata, tomate, cebola, repolho, alface, etc.), despertando pouco ou nenhum interesse comercial por parte de empresas de sementes, fertilizantes ou agroquímicos.

O cultivo das hortaliças tradicionais no Brasil é feito predominantemente por agricultores familiares, muitos deles caracterizados como populações tradicionais. O conhecimento do cultivo e consumo dessas plantas foi passado de geração a geração. Muitos plantios estão estabelecidos em pequenos quintais para o consumo da própria família, sem nenhum apelo comercial. Algumas espécies, no entanto, apresentam maior oportunidade de mercado, como o inhame (Dioscorea spp.) e o taro (Colocasia esculenta), sendo frequentemente encontrados em feiras e supermercados. Ainda, apesar de não ser o objetivo do trabalho nesta etapa, alguns produtos obtidos a partir de hortaliças tradicionais apresentam potencial comercial sub-explorado, inclusive de exportação, a exemplo da fécula (polvilho) de araruta e do chá de hibisco, extraído da flor da vinagreira. Outro nicho de mercado potencial é o de flores comestíveis como a capuchinha, destacando-se seu uso paisagístico em jardins e estético na ornamentação de pratos à mesa. Observa-se a presença de substâncias importantes do ponto de vista nutricional nessas flores, uma vasta gama de pigmentos associados a carotenóides. As precursoras do mercado de flores comestíveis no Brasil são a capuchinha ( Tropaeolum majus) e o amor-perfeito (Viola x wittrockiana), seguindo-se o alissum ou flor-de-mel (Lobularia marítima), a cravina (Dianthus chinensis) e outras.

A situação de desuso da maioria das hortaliças tradicionais pelos segmentos da sociedade acarreta em fragilidade com relação ao risco de perda desses materiais. De acordo com a FAO (2004), no decorrer de milênios o ser humano baseou sua alimentação em mais de dez mil diferentes espécies vegetais. Atualmente, entretanto existem menos de cento e cinquenta espécies sendo cultivadas. Destas, apenas doze atendem oitenta por cento de nossas necessidades alimentares; e mais ainda, apenas quatro espécies – arroz, trigo, milho e batata – suprem mais da metade de nossas necessidades energéticas. Muitas espécies que estão em desuso já se perderam ou estão vulneráveis. Com base nessa realidade, a FAO vem organizando desde 1983 reuniões com vários países em busca de soluções para essa crescente ameaça de redução de espécies vegetais, tão importantes no contexto da segurança e soberania alimentar e nutricional. Em 2004, foi então ratificado o Tratado Internacional sobre Recursos Fitogenéticos para Alimentação e a Agricultura, do qual o Brasil também é signatário.

Na literatura e no meio técnico, há certa confusão quanto à denominação desse grupo de hortaliças, inclusive na literatura internacional. O termo “hortaliças não-convencionais” é o que tem sido mais aceito pela comunidade técnico-científica, mas por vezes são utilizados também os termos “hortaliças negligenciadas” e “hortaliças subutilizadas”, havendo ainda um grupo de técnicos que as denomina “hortaliças tradicionais”, especialmente quando em trabalhos de campo junto aos agricultores.

Chamá-las de hortaliças tradicionais, em referência ao seu cultivo associado a populações tradicionais e como parte da tradição culinária regional, é também uma forma de valorizar a questão cultural agregada a essas espécies. Além disso, exclui as espécies exóticas que, mesmo sendo cultivadas no Brasil em algumas localidades, não representam a cultura brasileira, a exemplo de aspargo (Asparagus officinales), alcachofra (Cynara scolymus), ruibarbo (Rheum palmatum), bardana (Arctium lappa), yacon (Smallanthus sonchifolius), chingensai ou pak choi (Brassica chinensis), hana nirá (Allium tuberosum), pastinaca (Pastinaca sativa) e endívia (Cichorium endivia), entre outras, consideradas por vezes também hortaliças não convencionais, mas que não têm relação com as tradições brasileiras, na agricultura e na alimentação.

Entende-se por populações tradicionais grupos humanos cujas condições sociais, culturais e econômicas os distinguem de outros setores da comunidade nacional, geral, globalizada. Tais grupos possuem referências próprias ligadas, total ou parcialmente, a seus costumes e tradições. Conservam suas próprias instituições sociais, econômicas, culturais e políticas. Diegues (2001) enumera algumas características das populações tradicionais como a dependência e até simbiose com a natureza, os ciclos naturais e os recursos naturais renováveis, a partir dos quais se constrói um “modo de vida”; conhecimento aprofundado da natureza e de seus ciclos, transferido de geração em geração por via oral e que se reflete na elaboração de estratégias de uso e de manejo dos recursos naturais; noção de território ou espaço onde o grupo se reproduz econômica e socialmente; moradia e ocupação desse território por gerações, ainda que alguns indivíduos possam ter-se deslocado; importância das atividades de subsistência, ainda que a produção de mercadorias possa estar mais ou menos desenvolvida; importância da unidade doméstica, familiar e comunal e das relações de gênero, parentesco e compadrio para o exercício das atividades econômicas, sociais e culturais; simplicidade das tecnologias utilizadas, de impacto limitado sobre o meio ambiente; reduzida divisão técnica e social do trabalho; domínio do processo de trabalho pela família até o produto final; reduzida acumulação de capital; fraco poder político; auto-identificação ou identificação pelos outros de pertencimento a uma cultura distinta das demais. Assim, incluem-se em populações tradicionais, além de indígenas e quilombolas, muitos grupos de agricultores familiares, a exemplo dos geraiseiros e caatingueiros, entre outros, que têm a sua convivência e sobrevivência ligadas ao campo, onde os fatores produtivos locais são de importância vital na fixação dessas famílias no meio rural.

Entretanto, o termo “hortaliças tradicionais” tem causado confusão por alusão às hortaliças mais produzidas e consumidas, como batata, tomate e alface, por exemplo, visto que ainda não se construiu os conceitos de “alimentos tradicionais” e, menos ainda, de “hortaliças tradicionais” na mesma medida em que já se tem mais consolidado o termo “populações tradicionais”, apesar de essas não serem as populações mais comuns ou mais numerosas.

O foco deste trabalho são espécies mantidas no Brasil, ainda que muitas delas não sejam nativas, porém consideradas “naturalizadas”, resultado do forte intercâmbio genético que ocorreu no processo histórico de formação do Brasil e da plena adaptação ao solo e clima em algumas regiões do território brasileiro.

Um dos primeiros registros da base alimentar brasileira aparece retratado na carta de Pero Vaz de Caminha, na qual é descrita a alimentação dos povos indígenas que habitavam há milênios este território, e tem como referência a mandioca - “nem comem senão desse ‘inhame’ que aqui há muito...”. Na realidade, o “inhame” a que Caminha se referia era a mandioca (Manihot esculenta), ainda desconhecida pelos colonizadores europeus. Outras hortaliças faziam parte da alimentação indígena como batata-doce, alguns tipos de cará, abóboras, taiobas e mangaritos, pimentas, cubiu, araruta, bem como amendoim, milho, frutas, além de uma enorme gama de alimentos coletados nos campos ou florestas. Os portugueses, durante o período das grandes navegações (séculos XV a XVII), tiveram papel fundamental no intercâmbio de plantas entre o Brasil, o Reino e suas colônias à época na África e na Ásia. Algumas hortaliças passaram a ter grande importância na formação da base alimentar e cultural brasileira, a exemplo de quiabo, maxixe, inhame (cará) e vinagreira, trazidos pelos escravizados da África, de pimenta-do-reino e taro (conhecido popularmente por inhame), originários da Ásia, e de couve e repolho, originários da Europa. Há ainda algumas espécies, como a cenoura e a cebola, que foram trazidas para o Brasil por colonos portugueses, especialmente açoreanos, já em um segundo ciclo migratório, visto que foram introduzidas da Ásia para a Península Ibérica séculos antes pelos mouros. Em sentido inverso, foram disseminadas pelo mundo por espanhóis e portugueses a batata, o tomate, a batata-doce, as pimentas e as abóboras e morangas, entre outras espécies, provenientes do continente sul-americano. Cascudo (1983) descreve essa miscigenação, resumindo que o europeu, inclusive com influências mouras, é o introdutor da técnica e da sofisticação do paladar sobre os elementos indígenas e africanos. Essa integração cultural brasileira, refletida na questão alimentar, que foi miscigenada mais intensamente a partir da chegada dos colonizadores e incorporada à nossa cultura corre o risco de ser perdida ou drasticamente reduzida devido às transformações da sociedade e ao desuso de plantas anteriormente conhecidas e utilizadas, substituídas por outros alimentos com cadeias produtivas estabelecidas em larga escala e, principalmente, por alimentos industrializados.

Ainda assim, algumas hortaliças tradicionais são de suma importância na expressão da cultura de determinadas populações. Alguns exemplos são o ora-pro-nóbis em algumas regiões de Minas Gerais, havendo inclusive o festival anual do ora-pro-nóbis em Sabará, a vinagreira no Maranhão, base do prato mais significativo da culinária maranhense – o arroz de cuxá, o jambu e a chicória-do-Pará no Norte do Brasil, especialmente Amazonas e Pará, entre outros.

O termo “hortaliças tradicionais” trata de um grupo de alimentos que não é absolutamente determinado, fechado, a exemplo de uma definição por família botânica ou formas de consumo sendo, portanto, uma lista aberta à medida que se avolumam os trabalhos e se enriquece o intercâmbio de conhecimentos. Especialmente, se considerarmos em nível mundial, há espécies convencionais no Brasil como a mandioquinha-salsa (Arracacia xanthorrizha), o chuchu (Sechium edule), o jiló (Solanum gilo), o maxixe (Cucumis anguria) e a batata-doce (Ipomoea batatas) que podem ser incluídas na lista em um determinado momento e local. Entretanto, nesta publicação elas não foram incluídas por serem espécies mais trabalhadas ou com alguma organização enquanto cadeias produtivas, com oferta de material propagativo e outros insumos, recomendações técnicas em publicações e literatura relativamente ampla. Ainda, há espécies como o tupinambur (Helianthus tuberosus), a labaça ou língua-de-vaca (Rumex obtusifolius ), a capeba (Piper umbellatum ou Pothomorphe umbellata), o melão-de-São-Caetano (Momordica charantia), o cipó kupá (Cissus gongylodes) e a batata-de-purga (Ipomoea operculata) que, apesar de estarem presentes em algumas comunidades, não representam um alimento hortícola propriamente dito, apesar de seu uso esporádico especialmente como planta medicinal. Outras como a celósia (Celosia spp.), o espinafre amazônico ou orelha-de-macaco (Alternanthera sp.) e a urtiga-mansa (Urera baccifera) são comestíveis, porém praticamente não são utilizadas no Brasil.

Em relação a espécies de plantas espontâneas ou silvestres, muitas vezes consideradas “daninhas”, “inços” ou “matos”, cujas utilidades e potencialidades econômicas são pouco conhecidas, tem-se como referência no Brasil o trabalho de Kinupp (2007) que trata das plantas alimentícias não convencionais (PANCs). O estudo foi realizado na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), Rio Grande do Sul. Estimou-se a riqueza florística da RMPA em 1.500 espécies nativas, sendo que 311 delas (21%) possuem potencial alimentício. Isso comprova o inegável potencial de um número significativo de espécies autóctones subutilizadas, cujo aproveitamento econômico pode contribuir para o enriquecimento da dieta alimentar humana.

É interessante ressaltar o valor nutricional das hortaliças tradicionais que, conforme a espécie, está relacionado a teores significativos de sais minerais, vitaminas, fibras, carboidratos e proteínas, além de seu reconhecido efeito funcional/nutracêutico. Como exemplo de funcionalidade e valor nutricional, tem-se o inhame (Dioscorea spp.), reconhecido depurativo de sangue, indicado para o fortalecimento do sistema imunológico, ou ainda o ora-pro-nóbis, conhecido como a “carne vegetal” por seus elevados teores de proteínas.

A falta de estudos sobre o cultivo e incentivo à utilização dessas espécies é uma preocupação que deve ser observada pela pesquisa e extensão, para estimular a manutenção, a propagação e o consumo das hortaliças tradicionais, inclusive em consonância com as orientações do decreto 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, que institui a política nacional de desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais – PNPCT.

Neste contexto, uma série de iniciativas relacionadas à valorização de alimentos tradicionais vem ocorrendo nos últimos anos.

No Brasil, podemos citar a sanção da lei 11.346, de 15 de setembro de 2006, que criou o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN) e estabeleceu definições, princípios, diretrizes, objetivos e a composição do SISAN. Esta lei situa a segurança alimentar e nutricional como a realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis. Ressaltando não só a promoção da saúde e da nutrição, mas também a conservação da biodiversidade, a utilização sustentável dos recursos, a implementação de políticas públicas e estratégias sustentáveis e participativas de produção, comercialização e consumo de alimentos, respeitando-se as múltiplas características culturais do País.

Em 2007, realizou-se em Porto Seguro, Bahia, o 47º Congresso Brasileiro de Olericultura, coordenado pela Associação Brasileira de Horticultura (ABH), que teve como tema principal “Resgatando e Valorizando as Hortaliças Subutilizadas”. Nesse congresso foi discutida a progressiva perda de espécies de plantas, resultado do maior foco da pesquisa em espécies mais exploradas economicamente em detrimento de outras com menor expressão comercial.

Ainda neste enfoque, merece relato a parceria estabelecida a partir de 2008 entre a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), órgãos de pesquisa e desenvolvimento (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Epamig – e Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa), Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Prefeituras Municipais e organizações de produtores, a qual vem atuando na promoção do cultivo e consumo de hortaliças tradicionais no Estado de Minas Gerais, através da implantação de bancos comunitários, da realização de eventos (palestras, dias de campo, oficinas culinárias e agronômicas) e da publicação de cartilhas e livros, já tendo beneficiado mais de 50 municípios no Estado.

Em âmbito mundial destacam-se as atividades realizadas pela organização “Slow Food”. Trata-se de uma associação internacional sem fins lucrativos, fundada em 1989, que trabalha no sentido de mostrar como as nossas escolhas alimentares podem mudar o mundo, conjugando prazer ao se alimentar à consciência e responsabilidade das nossas escolhas. A organização surgiu em resposta aos efeitos deletérios e massificantes do fenômeno “fast-food”, ao desaparecimento de tradições culinárias regionais e ao decrescente interesse das pessoas com a procedência de sua alimentação. O “Slow Food” realiza eventos periodicamente, conhecidos por “Terra Madre Days” e promove a organização de comunidades do alimento, entidades engajadas na proteção das sementes e na produção, por vezes no processamento, no marketing, na distribuição e na educação eco-gastronômica, promovendo produtos artesanais produzidos em pequena escala para os consumidores. As comunidades do alimento estão ligadas ao território social, econômica e culturalmente, podendo ser de dois tipos, de território ou por produto.

Ações que visem a incentivar a valorização, o resgate e o consumo de hortaliças tradicionais são importantes não só por uma questão de segurança e de soberania alimentar e nutricional, uma vez que visa o incremento da diversidade e riqueza da dieta alimentar e fomento aos bons hábitos alimentares, mas também por abranger aspectos culturais, econômicos e sociais. Porquanto, estimula a produção e o consumo de espécies que fazem parte do patrimônio sociocultural do povo brasileiro, auxiliando também o movimento contra o processo de extinção de algumas espécies, a exemplo da araruta, do mangarito e do jacatupé, plantas quase desconhecidas atualmente mesmo no meio rural.

Finalmente, é importante ressaltar que utilizaremos o termo “hortaliças tradicionais” no intuito de valorizá-las, reconhecendo assim seu vínculo e o fato de sua preservação estar associada a populações e povos tradicionais.


PANCS: Araruta (Maranta arundinacea)


Araruta (Maranta arundinacea)

Em geral, não é utilizada como hortaliça e sim como matéria-prima para produção de fécula ou farinha, a não ser pelo uso esporádico de rizomas cozidos de uma variedade comumente chamada ararutão. Entretanto, devido à sua importância histórica e fragilidade genética, destaca-se assim a publicação dessa espécie nesta publicação.

Sua fécula foi muito usada no passado; hoje, porém, está em franco processo de desuso, quase extinção em algumas regiões, pela substituição por amidos de espécies com cadeia produtiva estabelecida como a mandioca e o milho. Por sua extrema rusticidade é planta com ampla faixa de distribuição, desde o Nordeste até o Sul do País, uma herbácea perene com até 1,5m de altura. Forma um intrincado complexo de pequenos caules rizomatosos junto ao sistema radicular, matéria-prima para extração da fécula ou da farinha.


Nomes comuns – Araruta e, para uma variedade específica, ararutão ou ralutão. Os indígenas denominam a fécula de aru-aru ou simplesmente aru.

Família botânica – Marantaceae.

Origem – Regiões tropicais da América do Sul, incluindo o Brasil.

Variedades – Existe variabilidade, sendo umas mais arredondadas, outras mais compridas, com formato de seta (especula-se sobre uma possível alusão ao nome em inglês arrowroot, que, por derivação, teria chegado à araruta). Existe a variedade ovo-de-pata, com rizomas pequenos (cerca de 2 a 3 cm) e arredondados. Há uma variedade denominada ararutão ou “ralutão”, provável derivação de ararutão, que na verdade é planta de outra espécie da família Marantaceae, a Canna edulis, comum em países andinos como a Bolívia e o Peru onde é chamada de “achira” e onde se consome seu polvilho, farinha ou mesmo os rizomas cozidos. Na prática, o que ocorre é a seleção e manutenção de variedades locais, não se observando a identificação sistematizada de variedades.

Clima e Solo – Pode ser cultivada em ampla faixa de condições ambientais, mas desenvolve-se melhor em regiões de clima quente e úmido, com temperaturas acima de 25ºC. Épocas secas e frias prejudicam o desenvolvimento da cultura, que tende a perder as folhas e entrar em dormência quando a temperatura cai abaixo de 15ºC ou quando cessam as chuvas. Em regiões com inverno ameno, o cultivo é viável somente a partir da primavera. Por outro lado, em regiões quentes e úmidas o ano inteiro, como em partes da Amazônia, que não apresentam frio ou seca definidos, as plantas não cessam o crescimento vegetativo, o que reduz a produção de rizomas. As melhores condições para o desenvolvimento da fase vegetativa da cultura são encontrados no Brasil central e nordeste, em virtude destes apresentarem um período de chuvas seguido por um período de seca, pois, favorece a translocação dos nutrientes das folhas, que secam completamente, para os rizomas.

Quanto ao solo, é uma planta muito rústica e bastante adaptada a diferentes tipos de solos, mas produz melhor em solos profundos, bem drenados, não compactados e com bom teor de matéria orgânica. Solos leves e arenosos facilitam a colheita.

Preparo do solo – Após aração e gradagem, efetuam-se o enleiramento e a adubação, sempre com atenção para a adoção de práticas conservacionistas. O plantio em leiras facilita sobremaneira a colheita se comparado ao plantio no solo nivelado.

Calagem e Adubação – Apesar da rusticidade da cultura, em solos empobrecidos responde à correção e à adubação. Quando necessário, efetuar a correção da acidez do solo com antecedência de 60 a 90 dias e aplicar a quantidade e o tipo de calcário com base na análise de solo, buscando pH entre 5,8 e 6,3. A adubação também deve ser baseada nos níveis de nutrientes observados na análise de solo, podendo-se utilizar a mandioca como planta de referência visto que não há recomendações específicas para araruta, ou seja, até 60 kg/ha de P2O5, 30 kg/ha de K2O e 20 kg/ ha de N, além de 15 ton/ha de esterco de curral curtido. Utiliza-se no plantio adubo fosfatado e parte do adubo nitrogenado e potássico, além da adubação orgânica. A adubação de cobertura deve ser feita entre 30 e 45 dias após o plantio, com fontes nitrogenadas na dosagem de 50 kg de N/ha e, conforme o manejo e a disponibilidade de nutrientes no solo, potássicas e com matéria orgânica.

Plantio – É feito por propágulos (porções dos caules rizomatosos) diretamente no local definitivo. Recomenda-se um mínimo de duas gemas (nós). Em geral, usa-se a parte central dos rizomas, mais robusta, para produção da fécula e as extremidades de rizomas vigorosos para o plantio. O espaçamento deve ser de 0,8 a 1,0 m entre as leiras e de 0,4 a 0,5 m entre plantas nas leiras. Pode-se plantar em linhas duplas, distantes 0,5 m entre si, tendo 0,8 a 1,0 m nas ruas (corredores entre linhas duplas). Há relatos do desenvolvimento espontâneo em meio ao “roçado” (lavoura), consorciado com feijão ou milho, isto é, deixando-se que se desenvolvam as plantas originadas a partir de pequenos rizomas ou de pedaços de rizomas deixados no solo no ciclo anterior, os quais permanecem dormentes no solo durante a estação seca, efetuando-se somente o raleio das plantas para estabelecer espaçamento adequado.

O cultivo pode ser realizado o ano inteiro em regiões tropicais e equatoriais, desde que haja umidade para seu desenvolvimento, sendo normalmente feito o plantio no início da estação chuvosa, dispensando a irrigação. Já em regiões sub-tropicais ou tropicais de altitude, o cultivo é restrito à época mais quente do ano (setembro-outubro a março-abril), permanecendo a cultura em dormência durante o período frio e/ou seco.

Tratos Culturais – Deve-se reduzir a competição com as plantas infestantes por meio de capinas manuais. Embora considerada tolerante à seca, deve-se irrigar conforme a necessidade, não havendo recomendações específicas para araruta. Em geral, é cultivada no período chuvoso, dispensando a irrigação. Apesar de sua rusticidade, pode sofrer um pouco com pragas desfolhadoras, havendo em geral fácil rebrota. Os nematoides do gênero Meloidogyne também podem causar pequenos danos aos rizomas.

Colheita e pós-colheita – A colheita tem início 6 a 7 meses após o plantio, manual com auxílio de enxadão ou semi-mecanizada com auxílio de aiveca. Após colhidos, os rizomasdevem ser lavados e preparados para o processamento. A produtividade pode superar 40 ton/ha e o rendimento do polvilho está em torno de 15 a 20%, portanto, obtém-se aproximadamente de 6 a 8 ton/ha de fécula.

O uso tradicional da araruta ocorre na forma de polvilho extraído dos rizomas. A fécula seca é usada para confecção de bolos, biscoitos, mingaus, doces, pudins. Também pode ser usada em substituição ao amido de milho, para engrossar molhos, cremes e sopas. É particularmente apreciada e procurada por suas características culinárias, sendo amido de ótima digestibilidade. Por sua leveza incomparável, os “biscoitos de araruta” derretem na boca. Também se pode extrair a farinha, menos nobre em paladar que a fécula, porém, mais rica e com maior rendimento na extração, em torno de 30 a 40%, prestando-se também para o fabrico de “quitandas”. É uma excelente opção para as pessoas que apresentam intolerância a produtos que contem glutém, como o trigo e a aveia.


Figuras 10 e 11: Araruta, parte aérea e rizomas


sábado, 16 de maio de 2020

PANCS: Amaranto (Amaranthus cruentus)


Amaranto (Amaranthus cruentus)


Planta herbácea anual, ereta, com altura de 1,0 a 2,0 m, caule de coloração esverdeada ou avermelhado, pigmentado pela presença de antocianina, e inflorescência avermelhada e em cacho no ápice do caule, comumente chamada de “crista de galo’’. Suas folhas têm consistência tenra e as flores apresentam-se na forma de espigas nos ápices dos caules ou nas axilas das folhas. É comumente classificada como pseudo-cereal pela utilização de seus riquíssimos grãos, especialmente nos países andinos, conquistando novos mercados nos últimos anos. Na África e em países da América Central como o Haiti apresenta importância enquanto hortaliça folhosa, mas em outros locais é muitas vezes considerada como planta invasora de plantações. Também é utilizada como planta indicadora de bons níveis de fertilidade do solo e apresenta potencial subexplorado como planta ornamental.

Nomes comuns – Amaranto, espinafre africano, espinafre haitiano.

Família botânica Amarantaceae.

Origem América andina tropical de altitude.

Variedades No Brasil, há uma cultivar lançada, a BRS Alegria, especialmente recomendada para produção de grãos, mas cujas folhas também podem ser consumidas como hortaliça. Mas, em geral, são utilizadas variedades locais de ocorrência espontânea.

Clima e solo É amplamente adaptado a diferentes condições de clima e solo, ocorrendo em todo o País.

Preparo do solo Após aração e gradagem, efetua-se o encanteiramento. Os canteiros devem ser semelhantes aos utilizados para alface, com 1,0 a 1,2 m de largura por 10 a 15 cm de altura. Entretanto, como a planta é geralmente cultivada em pequenas áreas, o que se faz é o manejo da cultura, aproveitando-se a germinação de plantas espontâneas. As operações são, em geral, feitas manualmente com auxílio de enxadas.


Calagem e adubação A calagem deve ser feita em função da análise de solo, aplicando-se calcário visando atingir pH entre 5,5 e 6,0. Por sua enorme rusticidade, recomenda-se somente a correção do solo e a utilização de composto orgânico, na dosagem de até 3,0 kg/m2 de canteiro, conforme os teores de matéria orgânica no solo. No caso da produção de grãos, que não é foco desta publicação, recomenda -se um aporte de NPK para maximizar a produção, segundo Spehar et al. (2003).


Plantio Reproduz-se por sementes, fácil e intensamente. A semeadura é feita, normalmente, no local definitivo. Sob condições ideais de temperatura e umidade, as sementes germinam a partir de quatro dias. O que usualmente acontece, na prática, em pequenas hortas é o manejo dessa espécie como planta espontânea, fazendo-se o desbaste para o espaçamento de aproximadamente 0,1 x 0,1 m. Em função do lento desenvolvimento inicial, pode-se fazer o semeio em bandejas para posterior transplantio aos 25-30 dias.

O plantio pode ser realizado durante todo o ano, desde que haja disponibilidade de água. Sob temperaturas inferiores a 15ºC, o desenvolvimento é retardado, portanto, na região Sul e em regiões de altitude da região Sudeste, o desenvolvimento é favorecido de setembro a março.


Tratos culturais A cultura deve ser mantida no limpo, sob baixa competição por plantas infestantes, por meio de capinas manuais. O sistema radicular vigoroso e o ciclo curto possibilitam ao amaranto tolerar os estresses hídricos. Porém, para aumentar a produção especialmente de folhas, deve-se irrigar quando necessário.

Apesar da rusticidade da cultura, pode-se observar, o ataque por pragas desfolhadoras, especialmente vaquinhas e idiamins, os quais normalmente não chegam a causar danos econômicos.



Colheita e pós-colheita A colheita das folhas é feita cerca de 45 a 60 dias após o plantio, quando as plantas estão com 30 a 50 cm e antes da emissão da inflorescência. Pode-se fazer a colheita mais tardia, mas as folhas vão ficando cada vez mais fibrosas. Colhe-se toda a planta, sugerindo-se o corte a 10 cm para manter as folhas mais limpas, sem resíduo de solo. Produz cerca de 1,0 a 1,5 kg/m2, o equivalente a 10 a 12 ton/ha, lembrando que em geral o cultivo como hortaliça folhosa é realizado em pequenos espaços. As plantas desse gênero são úteis para a produção de grãos nutritivos, de amplo uso nos países andinos, e folhagens. Os grãos podem ser utilizados no preparo de pães, torradas ou enriquecendo barras de cereais.


Figuras 8 e 9: Amaranto nas fases vegetativa e reprodutiva