segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Cultivo do Guaco



 O uso de plantas medicinais é uma prática milenar amplamente utilizada por grande parte da população mundial como fonte de recurso terapêutico. Tem sido largamente difundida, refletindo o reconhecimento do potencial da fitoterapia para os serviços de saúde, bem como a tendência dos consumidores em utilizarem preferencialmente produtos de origem natural (BRASIL, 2006). As pesquisas com plantas medicinais são responsáveis por inúmeras descobertas importantes na terapêutica. 
A espécie Mikania laevigata Schultz, conhecida popularmente por “guaco”, é uma planta medicinal que pertence à família Asteraceae, que reúne cerca de 420 espécies distribuídas principalmente na América Central e do Sul, sendo 171 delas citadas no Brasil. A planta de guaco é um subarbusto trepador que apresenta abundância de ramos, caracterizado pelo caule cilíndrico, estriado longitudinalmente e com nós evidentes. As folhas são opostas, ovais ou semioblongas, glabras (sem pelos), e de consistência coriácea. As flores são hermafroditas, carnosas, esbranquiçadas, dispostas em inflorescência, com capítulos reunidos em glomérulos e aquênio pentangular (CZELUSNIAK et al., 2012).
A planta de guaco é típica de regiões de clima subtropical quente e úmido, encontrada no Brasil desde São Paulo até o Rio Grande do Sul. Geralmente, ela está adaptada a climas sem deficiências hídricas e a ambientes com pouca luminosidade. 
No que tange à parte medicinal, as folhas e caules do guaco possuem ação expectorante e broncodilatadora, associada à presença de cumarina, marcador químico da espécie (FARMACOPEIA BRASILEIRA, 2010). Ademais, na literatura, o guaco é referenciado pela atividade anti-inflamatória, antimicrobiana alelopática, antimutagênica e antiulcerogênica (LORENZI; MATOS, 2002). 
Dada a importância dessa espécie medicinal, o guaco pode ser uma alternativa agrícola promissora de cultivo para os pequenos produtores, em razão da demanda pelo mercado brasileiro de fitoterápicos. 
Para as condições do litoral cearense, foram testados três genótipos (variedades) de guaco, sendo um proveniente da Embrapa Recursos Genéticos (Cenargen), em Brasília, DF, um da Universidade de Campinas (Unicamp/CPQBA), SP, e um da Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), SP. Almejou-se identificar qual dessas variedades de guaco melhor se adapta às condições cearenses, com alto potencial para produção e qualidade de matéria-prima. 
O cultivo foi conduzido no campo experimental da Embrapa Agroindústria Tropical em Paraipaba, CE, no período de maio de 2012 a outubro de 2014. 

A seguir, destacam-se as principais etapas do cultivo: 

Preparo das mudas 
As mudas foram produzidas a partir de estacas retiradas de plantas matrizes pertencentes às variedades aqui denominadas Cenargen, CPQBA e Unaerp. 
As estacas foram retiradas da parte mediana dos ramos das plantas matrizes, com média de 5 mm de diâmetro, 8 cm a 12 cm de comprimento, com quatro gemas e um par de folhas, as quais foram cortadas pela metade. Cada estaca teve a parte superior cortada transversalmente e a parte inferior em bisel. Em seguida, as estacas foram desinfestadas com hipoclorito de sódio a 0,05% por 15 minutos. 
Após o preparo das estacas, elas foram plantadas em tubetes com 53 cm³ (mL) de volume, preenchidos por uma mistura contendo vermiculita de granulação média e substrato comercial (Hortmix®), na proporção 1:3. Após o plantio, os tubetes foram acondicionados em câmara úmida. Diariamente, essas estacas eram irrigadas (duas a três vezes), sempre observando a umidade do substrato. 
Após 25 dias do plantio das estacas, foi avaliada a taxa de enraizamentos das variedades de guaco (Tabela 1). 

Tabela 1. Enraizamento de estacas de três genótipos de guaco. Fortaleza, CE. 

Após o enraizamento, foi realizado o transplante das mudas para vasos de plástico com capacidade de 1 litro de substrato, composto pela mistura de areia, húmus de minhoca e esterco bovino curtido, na proporção 1:1:2. As mudas permaneceram no viveiro por mais 30 dias sendo irrigadas diariamente (Figura 1). 

Figura 1. Mudas de guaco produzidas em casa de vegetação, Paraipaba, CE.  

Plantio e tratos culturais 
Quando as mudas se apresentaram prontas ao plantio no campo, elas foram plantadas em covas com dimensões de 25 cm (altura), 25 cm (largura) e 25 cm (profundidade), seguindo o espaçamento de 2,0 m entre linhas e 1,0 m entre plantas. Por ocasião do plantio, foi realizada adubação com esterco bovino curtido, na quantidade de 4 L/cova. 
Procedeu-se o plantio das variedades de guaco sob delineamento experimental de blocos ao acaso, com sete repetições compostas por cinco plantas (parcela). 

Figura 2. Plantas de guaco após seis meses de plantio cultivadas no Campo Experimental da Embrapa, Paraipaba, CE. 

O sistema de irrigação utilizado foi o gotejamento, com uma lâmina d’água diária de 25 mm, e os tratos culturais rotineiros como controle de plantas daninhas por meio de capinas manuais ou roçadeira. A cada 4 meses (seis adubações) foram aplicados, em cobertura, 2 litros de esterco bovino curtido por planta. 
Para melhor adaptação às condições climáticas do litoral cearense, as plantas de guaco foram cultivadas sob telado (sombrite®), com 30% de sombreamento. Por ser uma planta trepadeira, para o tutoramento, utilizaram-se estacas de sabiá tratadas, e espaldeira com três fios de arame liso nº 16. As amarrações periódicas dos ramos nos arames foram feitas conforme o crescimento dos ramos. Após o sexto mês de plantio, as plantas dos três genótipos de guaco apresentaram-se vigorosas (Figuras 2A, 2B e 2C). 

Pragas e Doenças 
Ao longo do cultivo, foi realizado o controle de pragas e doenças. Por ocasião da colheita, foi registrada a presença de abelhas arapuá (Trigona spinipis). Com relação à ocorrência de doença, após 24 meses de cultivo, foi verificada a ocorrência do fungo Macrophomina sp., típico de solo, que prefere período de pouca chuva e temperatura elevada e infecta a raiz da planta. Seus efeitos, muitas vezes, só são percebidos quando o plantio já está comprometido, ou seja, o fungo se distribui de maneira desuniforme infectando plantas "em reboleiras" (Figura 3). Para o controle, realizou-se poda dos ramos secos e pincelamento com oxicloreto de cobre. Ressalta-se que, em caso de infecções mais severas, é aconselhável não utilizar mais a área para o plantio de novas plantas, visto que o fungo permanece no solo na forma de estruturas de resistência. folhas e talos, preferencialmente antes do florescimento. 

Figura 3. Plantas de guaco com sintoma de ataque de fungo Macrophomina sp., Paraipaba, CE. 

Colheita 
O estágio de desenvolvimento da planta é muito importante para que se determine o ponto de colheita, principalmente de plantas perenes e anuais de ciclo longo, cuja máxima concentração é atingida a partir de certa idade e/ou fase de desenvolvimento. No caso do guaco, são colhidos 
Nas condições do litoral cearense, observou-se que as plantas de guaco não floresceram, de modo que a determinação do momento ideal de colheita se deu conforme o ponto de maior produção de biomassa. Nesse cultivo, foram realizadas duas colheitas: a primeira ocorreu aos 15 meses após o plantio (Figura 4), e a segunda, aos 12 meses após a primeira colheita. 

Figura 4. Plantas de guaco cultivadas no Campo Experimental da Embrapa, em Paraipaba, CE. 

A colheita do guaco foi feita de forma manual com tesouras de poda (Figura 5). O método de poda/ colheita consiste em cortar somente os ramos secundários (plagiotrópicos), ou seja, aqueles que saem dos ramos principais (ortotrópicos). Estes últimos devem permanecer intactos nos arames de sustentação. A colheita foi realizada no período da manhã, por possibilitar o processamento do material fresco no mesmo dia. 

Figura 5. Colheita de ramos da planta de guaco no Campo Experimental da Embrapa, em Paraipaba, CE. 

Após a colheita dos ramos, foram separadas as folhas e os caules, sendo eles acondicionados em sacos de papel devidamente identificados e pesados. Esse material foi colocado em estufa com circulação forçada de ar, a 45 ºC, até peso constante, o que ocorreu após aproximadamente 72 horas. Em seguida, o material foi pesado em balança analítica com precisão, para quantificar a distribuição de biomassa nas partes da planta, em cada tratamento. Assim, determinaram-se as seguintes variáveis: produtividade, matéria fresca total, matéria fresca das folhas e matéria fresca dos caules (Tabelas 2 e 3)


Tabela 2. Massa Fresca Total e particionada das folhas e do caule (t/ha) de três genótipos de guaco, em duas colheitas (C), cultivado no Campo Experimental da Embrapa, Paraipaba, CE. 


Tabela 3. Massa Seca Total e particionada das folhas e do caule (t/ha) de três genótipos de guaco, em duas colheitas (C), cultivado no Campo Experimental da Embrapa, Paraipaba, CE. 

Pelos resultados obtidos, observou-se que a produtividade total, tanto de de matéria fresca quanto de matéria seca, foi obtida com a variedade de guaco Unaerp. 
A diferença na produção de biomassa pode ser observada em todos os tratamentos estudados. Verifica-se que a massa seca da folha, caule e total foi incrementada em plantas do genótipo Unaerp, diferindo dos outros genótipos e mostrando maior adaptabilidade para as condições climáticas do Ceará. 
Esses resultados apontam que, entre os genótipos estudados, o Unaerp pode ser considerado o mais adequado para o cultivo no litoral cearense. 

Recomendações importantes: 
Para a propagação, recomenda-se a estaquia semilenhosa, utilizando estacas com quatro 
gemas e mantendo um par de folhas cortadas ao meio, sendo o enraizamento em torno de 25 dias. 
• Após o enraizamento das estacas, recomenda- ‑se seu transplantio para vasos de plástico com capacidade de 1 litro, sendo o substrato composto pela mistura de areia, húmus de minhoca e esterco bovino curtido, na proporção 1:1:2, permanecendo no viveiro por mais 30 dias. 
• O plantio na área de cultivo deve ser realizado em covas adubadas com fertilizantes orgânicos (húmus ou esterco bovino curtido), em espaçamento de 2 m entre linhas e de 1 m entre plantas. 
• Para o cultivo, é necessário tutorar a planta em espaldeiras com três fios de arame liso nº 16, realizando amarrações periódicas dos ramos nos arames no sentido anti-horário. 


Por se tratar de uma planta de uso medicinal, o cultivo de guaco deve ser preferencialmente sem aplicação de agrotóxicos, com rotação de culturas e controle natural de pragas e doenças. Visando à qualidade do produto, a planta para uso medicinal (na forma de chá ou fitoterápico) tem que ser livre de resíduos químicos, maléficos à saúde. 
A colheita das folhas pode ser realizada no período da manhã, após 12 meses do plantio, deixando pelo menos 30% dos ramos com folhas na planta, para permitir sua recuperação vegetativa. 
A secagem das folhas e talos deve ser feita em estufas a 45 ºC, ou seja, em temperatura amena para não prejudicar a sensibilidade dos princípios ativos, em especial a cumarina (no caso de guaco). 
A comercialização de guaco pode ser feita principalmente por meio das folhas e talos secos, pois ambos têm o principio ativo. 
É necessário focar a produção de guaco em plantas adaptadas ao clima da região. No caso da região litorânea do Ceará (temperatura elevada), é recomendável cobertura sobre as plantas cultivadas com 30% de sombreamento (sombrite). 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Mercado para a Melancia


O cultivo da melancia se bem manejado sob irrigação e adoção de bom nível tecnológico, atinge altas produtividades, pois esta cultura tem grande potencial no Nordeste brasileiro, visto que esta região dispõe de elevada luminosidade e altas temperaturas durante o ano inteiro. Os estados de Pernambuco e Bahia destacam-se como o maior polo de produção de melancia no Nordeste brasileiro. O controle de fatores pré e pós-colheita, que diminuem a qualidade e o valor comercial da melancia, podem aumentar a eficiência na comercialização, mantendo a qualidade, diminuindo perdas e ampliando os lucros.

No estabelecimento de uma estratégia para o pequeno produtor rural, deve-se privilegiar, inicialmente, a definição do que produzir, com base em três fatores: recursos disponíveis, que dizem respeito aos fatores de produção: solo, água, clima, equipamentos e condições econômicas; a vocação dos produtores para trabalhar com determinados produtos na propriedade, o mercado e suas tendências de crescimento. Nestes últimos itens residem os grandes entraves para o pequeno produtor rural.

No Brasil, o mercado consumidor leva em consideração o tamanho e formato do fruto, coloração da polpa, teor de sólidos solúveis, presença ou ausência de sementes e o preço. Observa-se que na maior parte das áreas plantadas, a predominância é de frutos grandes, com peso médio acima de 6 kg. No entanto, em algumas regiões produtoras, que não estão próximas de centrais de comercialização, os atacadistas chegam a classificar frutos abaixo de 8 kg como 'refugos', diminuindo a remuneração pelos os mesmos. Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP), a remuneração por frutos grandes (≥9 kg) da cv. Crimson Sweet e de híbridos com o mesmo padrão externo da referida cultivar, foi superior em aproximadamente 44% em relação aos frutos pequenos da citada cultivar em 2009 (Tabela 1). Provavelmente, a menor remuneração desses frutos pequenos decorre da alta frequência de frutos imaturos, e, portanto, de menor qualidade. Entretanto, recentemente, destaca-se o surgimento de novos tipos de melancias, as chamadas mini-melancias, entre 1 kg e 2 kg. Isto se deve, principalmente, à exigência do mercado por produtos alternativos, onde o consumidor opta por frutos menores, sem sementes e de qualidade.

Tabela 1. Preços da melancia com sementes em atacado (28/12/2009) na ¹Central de Abastecimento Alimentar de Pernambuco (CEASA/PE) e na ²Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP).
Produto
Classificação
Preço/kg (R$)
Mínimo
Máximo
Médio
Melancia Redonda¹
-
0,35
0,50
0,42
Melancia Redonda/Comprida²
Graúda
0,93
1,13
1,03
Melancia Redonda/Comprida²
Média
0,66
0,86
0,76
Melancia Redonda/Comprida²
Miúda
0,50
0,66
0,58
Fonte: CEASA/PE, CEAGESP (2009).

A melancia da região do Submédio São Francisco, embora seja toda comercializada no mercado interno, é destinada principalmente para as capitais do Nordeste brasileiro e para os mercados consumidores das regiões Sudeste e Sul do País. No Mercado do Produtor de Juazeiro, BA, em 2007, foram comercializados 4.171.166 kg, que correspondeu a uma movimentação de capital equivalente a R$ 824.845,00.

Em 2009, a maior parte da melancia comercializada no Mercado Atacadista – EBAL/CEASA, BA, foi oriunda da produção dos municípios do Estado da Bahia, com uma participação variando de 82,7% a 97,5% do volume global de frutos vendidos. Destacando-se principalmente Juazeiro, Barreiras, Paulo Afonso, Teixeira de Freitas, Inhambupe, São Desidério e Sátiro Dias (Tabela 2). Outro estado de maior importância no abastecimento desse mercado atacadista foi Pernambuco (0,8% a 15%), especialmente no primeiro semestre, onde se destacaram os municípios de Santa Maria da Boa Vista, Floresta, Petrolândia, Petrolina e Flores.

Em 2009, o preço médio na comercialização de melancia no referido mercado atacadista do Nordeste brasileiro oscilou de R$ 0,45/kg - fevereiro a outubro - a R$ 0,64/kg - julho - e movimentou o equivalente à R$ 12.712.230,00 no período de janeiro a outubro.

Tabela 2. Comercialização de melancia no Mercado Atacadista EBAL/CEASA-BA, (janeiro a outubro, 2009): origem, volume, procedência e preço.
Estados
Janeiro - Fevereiro
Março - Abril
Maio - Junho
Participação
Principais municípios fornecedores
Participação
Principais municípios fornecedores
Participação
Principais municípios fornecedores
Total frutos comercializados
2,28 t
-
2,41 t
-
2,14 t
-
BA
91,03%
Juazeiro, Paulo Afonso, Inhambupe e Teixeira de Freitas
86,45%
Juazeiro, Teixeira de Freitas, Paulo Afonso, Inhambupe e Tucano
96,84%
Juazeiro, Teixeira de Freitas, Juazeiro e Paulo Afonso
ES
2,01%
Santa Maria de Jetiba
0,99%
Santa Maria de Jetiba
-
-
MG
0,45%
Alagoa
-
-
-
-
PA
0,49%
Floresta do Araguaia
-
-
-
-
PB
0,10%
Mamanguape
0,24%
Mamanguape e Santa Teresinha
-
-
PE
6,36%
Stª. Maria da Boa Vista, Floresta, Petrolina e Flores
12,21%
Stª. Maria da Boa Vista, Petrolândia e Floresta
1,83%
Stª. Maria da Boa Vista, Floresta e Petrolândia
RN
0,13%
Mossoró
-
-
-
-
SC
0,71%
Pouso Redondo e Itajaí
-
-
-
-
SE
0,49%
Neópolis
0,23%
Canindé de S. Francisco e Simão Dias
-
-
SP
-
-
-
-
0,01
Jacareí
TO
-
-
-
-
-
-

*Valor comercializado em R$ 1.000,00: janeiro - fevereiro: R$ 2.100,86; março - abril: R$ 2.476,32; maio - junho: R$ 2.405,78; julho - agosto: R$ 2.476,47; setembro - outubro: 3.252,80.

A análise do comportamento de preços da melancia produzida e comercializada na região do Submédio São Francisco, no período de 1995-2005, revelou que:

a) Os índices estacionais mais altos se concentram nos dois últimos meses do primeiro semestre, enquanto os mais baixos foram registrados no segundo semestre, no período de setembro a novembro.

b) As amplitudes de variação do preço do produto analisado foram moderadas na maioria dos meses do ano, procedimento que indica que a melancia do Submédio São Francisco não registra quedas bruscas ou aumentos de cotações ao longo do ano.

c) O preço da melancia da região do Submédio São Francisco teve um comportamento muito estável ao longo do período em estudo.

d) A melancia não apresenta grandes riscos de comercialização ao longo do ano, mas o primeiro semestre registra um desempenho mais favorável que o segundo.

Ainda de acordo com aquela análise, os índices estacionais relativos aos preços médios mensais recebidos pelos produtores de melancia da região do Submédio São Francisco, nos meses de maio e junho são registrados os maiores preços na comercilização de melancia. Entretanto, nos meses de julho e agosto os índices se igualam à média anual. No período de setembro a novembro há um decréscimo no preço, voltando a subir em dezembro. Observa-se que os meses que registram preços mais favoráveis no Submédio São Francisco correspondem à época mais fria do ano. Entretanto, este período é o mais propício aos ataques de agentes patogênicos, demandando um controle eficiente de doenças fúngicas que afetam o cultivo da melancia.

Um fato que chama atenção na análise da comercialização são as indicações de que a melancia seja um produto de demanda mais elástica em relação a preços, significando que nem sempre sua produção na entressafra, para obtenção de preços mais elevados, seja recomendável economicamente. É possível se obter uma maior renda líquida por hectare, cultivando-a no período de safra, pois os menores preços são mais do que compensados pela maior produtividade da cultura.

Em geral, a produção por hectare cai pela metade na entressafra, mas, para ter resultado econômico mais favorável, a produtividade deveria cair no máximo 20%.



Exportação: mercado potencial para a melancia

Em termos gerais, a demanda por produtos alimentícios de alta qualidade cresceu regularmente nos países desenvolvidos, o que provocou importantes aumentos do consumo, principalmente de frutas frescas. Nesses países, existe um público habituado a consumir produtos frescos durante todo o ano, independentemente de o produto ser de origem local ou do exterior. Além disso, a ênfase nos cuidados com a saúde e nos aspectos nutritivos dos alimentos é outro fator que tem contribuído para a ampliação do consumo de frutas e hortaliças frescas. Assim, justifica-se a grande importância que merece a análise do comportamento do setor consumidor, sobretudo nos países da União Europeia, nos Estados Unidos da América e no Canadá.

As exportações de melancia pelo Brasil começaram em 1978, apresentando crescimento do volume exportado até 1980. No período de 2001-2005, as exportações cresceram 64,5%, passando de 13.698 toneladas em 2001 para 22.531 toneladas em 2005 (Tabela 3). De 2000 a 2007, houve um incremento de, aproximadamente, 147% no volume de exportação (Figura 1).

Tabela 3. Produção e exportação de melancia no período 2001/2005, no Brasil, em toneladas
Produto
Anos
Melancia
2001
2002
2003
2004
2005
Produção (t)
600.000
1.491.130
1.905.800
1.719.392
1.850.000
Exportação (t)
13.698
12.251
16.364
16.143
22.531
Fonte: FAO (2009).

Fonte: Adaptado do Instituto FNP/SECX, citado Agrianual, 2009..

Tabela 4. Exportação brasileira de melancia no período de 2004 a 2007.
Países
2004
2005
2006
2007
2008
M US$
Tonelada
M US$
Tonelada
M US$
Tonelada
M
US$
Tonelada
M US$
Tonelada
Países Baixos
1857
6.306
3.251
10.053
3.653
11.088
5.396
13.969
1.281
3.030
Reino Unido
1175
4.088
2.754
8.504
3.641
11.105
4.285
10.334
1.045
2.523
Espanha
306
1.034
462
1.366
913
2.591
1.247
3.013
296
650
Alemanha
372
1.381
90
355
555
1.751
668
1.619
13,3
32,8
Argentina
218
2.943
90
1.195
156
1.943
288
3.337
67,1
400
EUA
0
0
24
57,4
388
585
219
307
0
0
Itália
14,5
51,4
65,7
253
223
625
139
333
7,4
17,6
Polônia
0
0
0
0
101
314
138
336
8,9
20,7
Irlanda
0
0
12
37,8
54,7
156
39,0
90,2
0
0
Outros
61,3
339
171
710
33,9
175
118
313
48,6
130
Total
4.004
16.142
6.919
22.531
9.719
30.333
12.537
33.651
2.767
6.804
Fonte: Instituto FNP/SECX, citado por Agrianual (2009).


Figura 1. Exportação de melancia (1.000 t) pelo Brasil, no período de 2000 a 2007.

O polo Aracati/Mossoró/Açu, no Estado do Rio Grande do Norte, como já tem as exportações de melão estabelecidas, tem procurado consolidar as exportações de melancia sem sementes. Também, os produtores de Tocantins e Goiás têm procurado através do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a certificação da inexistência da praga mosca das frutas (Anastrepha grandis), medida necessária para habilitar à exportação de melancia e demais cucurbitáceas produzidas naquela região.

No período de 2004 a 2008, os principais importadores de melancia produzida no Brasil foram os países europeus (Tabela 4). O Brasil tem um mercado em expansão condicionado pela qualidade das frutas e melhoria dos serviços de exportação