quarta-feira, 29 de maio de 2019

Solos para a Cultura da Melancia


A escolha do solo adequado para o cultivo da melancia deve atender às exigências de fertilidade física e química dessa olerácea, para que a cultura tenha bom desenvolvimento e possa expressar suas características varietais e o seu potencial produtivo. 
A cultura da melancia adapta-se aos mais diversos tipos de solos, podendo ser de textura arenosa ou média. Solos de textura argilosa ou muito argilosa devem ser evitados, a exemplo dos Vertissolos que ocorrem no Submédio do Vale do São Francisco, principalmente por causa dos problemas de contração e expansão, e a elevada densidade, tão comuns nesta classe de solos. Os solos de pouca profundidade, como os Neossolos Litólicos e os mal drenados como os Gleissolos, além daqueles que apresentam altas concentrações de sais como os Neossolos e Cambissolos Flúvicos sódicos ou salinos, e outras substâncias tóxicas, também devem ser evitados. 
Terras cultiváveis, aparentemente sem problemas ou com limitações simples de conservação e de textura média são as preferenciais. Nos solos de textura arenosa como nos Neossolos Quartzarênicos e Regossolos, a cultura da melancia se desenvolve de forma adequada, desde que sejam corrigidas as deficiências nutricionais, principalmente nos primeiros.
O sistema radicular da melancia é, normalmente, superficial. Entretanto, quando são realizadas práticas de manejo adequadas para solos mais compactados e/ou adensados, o sistema radicular da melancia pode atingir profundidades de até 60 cm. Este maior desenvolvimento em profundidade contribui para uma melhor exploração e extração de água e nutrientes podendo, em certos, casos levar à redução dos custos de produção.
Em termos de fertilidade química, solos que apresentam reação ácida podem levar ao aparecimento de distúrbios fisiológicos, como por exemplo, a podridão estilar, que decorre da deficiência de cátions alcalinos como o cálcio, principalmente, em cultivares de frutos mais alongados. Entretanto, esta deficiência pode ser corrigida com o uso de condicionadores do solo, como calcários calcíticos ou dolom íticos.

Preparo inicial do solo

O preparo inicial do solo compreende operações necessárias, no sentido de criar condições de implantação de cultivos. Quando se trata de áreas cobertas com vegetação natural (mata, capoeira, etc.) ou artificial (pastagens, culturas perenes, semiperenes ou anuais), deverá ser feito o desmatamento manual ou mecanizado e, se necessário, a movimentação de terra para tornar a superfície regular e facilmente trabalhável.

Desmatamento

É uma operação que consiste na eliminação da vegetação existente na área, seja mata virgem ou suas formas de regeneração, ou, ainda, culturas perenes e semiperenes, compreendendo as seguintes formas:

a) Desmatamento mecânico - Realizado por meio do uso de tratores, normalmente de esteiras, equipados com lâminas cortadoras frontais fixas ou anguláveis, destocadores com aríete frontal, correntões e rolo faca, entre outros dispositivos.

b) Desmatamento manual - Em geral é utilizado em pequenas áreas com vegetação tipo capoeira, ou onde a vegetação foi retirada para aproveitamento secundário e os tocos remanescentes devem ser escavados e eliminados com auxílio de enxadões e chibancas. Este tipo de desmatamento, também, pode ser utilizado na eliminação de culturas arbustivas.

Levantamento da área

Após o desmatamento, deve-se efetuar o levantamento planialtimétrico da área onde se deseja instalar o cultivo, a fim de estabelecer as curvas de nível, bem como as estradas, redes de drenagem superficial e subterrânea, redes de distribuição do sistema de irrigação, unidades de rega, entre outros.

Preparo do solo para implantação do cultivo

O preparo modifica rapidamente a biologia e a dinâmica dos nutrientes do solo, sendo dependente do tipo de equipamento usado. As modificações no perfil do solo e camadas adjacentes vão depender do tipo e da intensidade de uso do implemento selecionado. Essa etapa de preparo do solo compreende as operações de movimentação de solo agrícola, para melhorar as condições físicas, tais como: estrutura, aeração e uniformidade de agregados (torrões), a fim de torná-lo apto para a instalação dos cultivos. Além das operações básicas, tais como: aração, gradagem, distribuição de corretivos e fertilizantes, pode ser incluída, também, a operação de subsolagem, sempre que for constatada a compactação e/ou adensamentos em camada subsuperficial. O preparo da área visa, também, facilitar as operações posteriores ao plantio como irrigação nos sulcos, amontoa, movimentação de pessoas e de máquinas para a realização de práticas culturais. A enxada rotativa, que possui as lâminas formando um rotor, distribuídas em um eixo transversal ao sentido de deslocamento do implemento, de levante hidráulico, normalmente é acionada pela tomada de potência do trator, sendo mais utilizada no preparo de solo para hortaliças. Em outras culturas, seu uso é limitado em virtude de diminuir muito a estabilidade de agregados no solo.
O preparo do solo pode ser dividido em várias etapas. Depende do tipo de solo e disponibilidade de máquinas e às vezes algumas etapas são suprimidas porque não há disponibilidade de equipamentos ou por questões de economia como é o caso de se usar gradagem em substituição à aração. Comumente, as etapas são:

1) Usar a roçadeira para a ceifa de restos de cultura e ervas de cultivos anteriores. Neste caso, o uso de arado de disco liso só pode ser efetuado após a secagem do material vegetativo, o que não é muito recomendado por causa da degradação da matéria orgânica, o mais recomendável é o arado de discos recortados, arados de aivecas ou a grade aradora.
2) Subsolagem da área até atingir a profundidade da camada adensada, para rompimento de existente camada compactada visando a penetração da água e o crescimento da raiz em profundidade.
3) Aração em profundidade, com aiveca de preferência, quando necessário fazer calagem, preferencialmente, com antecedência de 2 meses, incorporando o corretivo no solo com auxílio de gradagem superficial com grade leve (discos abertos).
4) Aplicar calcário de 2 a 3 meses antes do plantio, a fim de que haja tempo necessário para neutralizar a acidez do solo com eficácia.
5) Gradagem até destorroamento e nivelamento adequados.
6) Irrigação da área, 3 a 4 dias antes do plantio/transplantio.
7) Sulcamento para plantio/transplantio, normalmente entre as operações feitas após o plantio/transplantio, para controlar ervas, para diminuir a compactação e melhorar a aeração e a penetração da água no solo.

Preparo intensivo provoca maior perda da matéria orgânica do solo, via oxidação e fluxo de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera, aumentada pela baixa incorporação de material orgânico durante o pousio e pela manutenção do solo sem cobertura vegetal.
As operações do preparo do solo em áreas com declividade devem ser reduzidas ao mínimo e realizadas em curvas de nível. Uma boa produtividade é conseguida quando o solo é bem preparado. 
A aração visa “cortar”, revolvendo e tornando o solo mais solto, permeável, aerado, com melhor condição para o desenvolvimento sistema radicular da planta. Na aração, grande parte dos restos culturais remanescentes é enterrada, e deve ser feita com o solo úmido, próximo à capacidade de campo; é uma operação necessária, principalmente em solo com textura argilosa que possua deficiência na drenagem e na penetração de água. Normalmente, após a aração, ocorre perda de carbono para a atmosfera em consequência da exposição e a subsequente oxidação da matéria orgânica além de aumento no teor de nitrogênio (N) mineral e na taxa de desnitrificação. 
A aração com aiveca (leiva de forma prismática) proporciona maior volume de solo solto que o arado de disco. O solo arado com aiveca fica mais irregular na superfície e com maior área superficial e espaço vazio relativamente ao solo arado com disco (leiva de forma semicircular), permitindo diferenciadas taxas de fluxos de CO2 e de vapor de água para a atmosfera e de arejamento do solo.
Quando o solo com excesso de umidade é arado, há formação de torrões grandes e duros, que não são facilmente rompidos pelas operações futuras. Deve-se considerar, também, que a aração de solo muito seco dificulta a penetração do arado. Dependendo do solo, para a obtenção de preparo mais profundo, é recomendada uma segunda aração após a gradagem e a emergência inicial de ervas.
A gradagem é feita com grade niveladora de discos ou de dentes com a finalidade de destorroar e “aplainar” o solo arado. A função básica da grade é complementar a aração embora, em algumas situações, possa substituir o trabalho do arado. As gradagens são feitas, geralmente, logo após a aração e antes do sulcamento. 
Apesar do predomínio da propagação através da semeadura direta, via semente e em covas, como é o caso da melancia, não é necessário que o solo esteja muito destorroado, pois os torrões de solo ajudam na fixação das plantas por meio das gavinhas. A superfície do solo pode apresentar torrões que favorecerão a fixação das ramas, evitando que ventos fortes provoquem danos à planta e aos frutos, além de impedir que os frutos mais pesados afundem muito no solo.
O excesso de operações mecanizadas deixa o solo pulverizado e suscetível à formação de crosta e à erosão, além de compactar as camadas mais profundas do perfil do solo não alcançadas pelos implementos. Foi comprovado um decréscimo significativo na produtividade da melancia em consequência da compactação do solo provocada pelo modo de preparo do terreno. No tratamento em que foi feita apenas a aração, a produtividade foi 16,23% maior que no preparo de solo com aração e gradagem. 
O sulcamento deve ser feito à profundidade de 20 cm, no espaçamento de 2 m a 3 m entre as linhas de cultivo (considerando o hábito de crescimento das cultivares). Quando o sistema de irrigação for por gotejamento ou aspersão, essa prática será utilizada como balizamento para o plantio, servindo de base à realização de adubação química e orgânica em fundação (no fundo do sulco), além de elevar o nível da zona de plantio, drenar o excesso de água e evitar o acúmulo de água no colo da planta.
Em solos muito compactados, recomenda-se a realização de uma subsolagem antes da aração, utilizando de trator de esteira (Figura 1) ou de pneus.

Foto: José Barbosa dos Anjos.
Figura 1.Subsolagem com trator de esteiras.

A aração (mobilização/revolvimento) é uma operação que visa à quebra de torrões quando realizada após uma subsolagem, bem como a incorporação de restos oriundos da cultura anterior, para incorporação de matéria orgânica no solo.
Para uma melhor eficiência no preparo de solo com aração, deve-se dar preferência ao uso de arado com discos recortados (Figura 2). Em solos isentos de tocos e de raízes grossas, esta operação pode ser realizada com arados de aivecas.
Foto: José Barbosa dos Anjos.

Figura 2.Aração: a) trator de pneus; b) modelo de disco de arado com perfil recortado.

Aração simultânea à subsolagem

A aração simultânea é utilizada quando não há disponibilidade de tratores com potência suficiente, capaz de efetuar a subsolagem (descompactação do solo) numa só operação. A cada percurso do arado, faz-se a subsolagem, com o trator deslocando-se dentro do sulco deixado pela aração, cujo objetivo é obter maior penetração das hastes do subsolador e, assim, sucessivamente. No caso da opção pela aração combinada com a subsolagem, é necessário dispor de dois tratores, sendo um equipado com arado e outro com subsolador, para realizarem o trabalho simultâneo e alternadamente (Figura 3a). O uso da aração combinada com subsolagem pode ser dispensado, quando se dispõe de tratores de esteiras, ou tratores de pneus com potência acima de 140 cv (103,04 kW) para realizar a subsolagem convencional, antes da aração. A profundidade de subsolagem deve ser de 0,80 m a 1,20 m, seguida da aração característica do preparo inicial do solo, de 0,30 m a 0,40 m de profundidade (Figura 3b).

Foto: José Barbosa dos Anjos.
Figura 3.a) Aração combinada com a subsolagem; b) detalhe da subsolagem.

O sulcamento faz-se necessário quando se deseja utilizar irrigação por infiltração (superfície). A operação consiste em regular o sulcador no espaçamento desejado e sulcar o terreno a uma profundidade de 20 cm. Os sulcos devem possuir de 0,2% a 0,5% de declividade e 10 m a 50 m de comprimento, conforme a topografia do terreno, textura do solo e época do plantio. Mesmo utilizando a irrigação por aspersão ou localizada (gotejamento), muitos produtores fazem o sulcamento do terreno para realizar a adubação de plantio (Figura 4).
Sulcos profundos para a confecção de bancadas, leiras ou camalhões, elevam a profundidade do perfil de solo explorado pelo sistema radicular das plantas, sendo uma prática que repercute na drenagem do excesso de água, principalmente na época chuvosa, bem como permite a manutenção das leiras fixas entre plantios sucessivos, deixando-se linhas permanentes de trânsito de pessoas e equipamentos. Em áreas com muito declive, os camalhões devem ser feitos em curvas de nível.
Em época chuvosa, solos de textura mais argilosa são de difícil drenagem. Neste caso, o plantio deve ser feito acima da superfície original do solo, na lateral (borda) do sulco ou no centro dos camalhões.

Foto: Rita de C. S. Dias.
Figura 4.Preparo do solo: a) aração e gradagem; b) sulcamento para adubação de plantio.


Preparo mínimo ou reduzido de solo

Preparo mínimo ou cultivo mínimo são práticas conservacionistas que visam menor mobilização do solo, de forma que grande parte da área esteja coberta com resíduo de culturas anteriores, “mulching”, cobertura viva com plantas espontâneas ou cobertura verde. Os benefícios desta prática são: menor gasto de energia, aumento da concentração de matéria orgânica, melhoria das condições físicas e químicas do solo, bem como prevenção de erosão. Essas atividades também promovem o aparecimento de organismos benéficos ou não à melancia


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