terça-feira, 14 de maio de 2019

Aspectos socioeconômicos da Cultura da Melancia



O Sistema de produção de melancia é uma publicação que resultou de parcerias da Embrapa com outras instituições. Traz muitas informações sobre esta importante oleácea, que tem boa parte de sua produção direcionada ao mercado externo.
Nesta publicação, são abordados aspectos como: produção de mudas, plantio, normas técnicas para o controle de pragas, manejo de plantas daninhas, coeficientes técnicos, custos, rentabilidade, mercado e comercialização e muitos outros.
Os resultados apresentados derivam de estudos de pesquisadores de diversas áreas como: melhoramento vegetal, irrigação, fisiologia pós-colheita, entomologia, socioeconomia, olericultura, produção de biomassa e outras. Portanto, trata-se de um trabalho multidisciplinar cujo principal objetivo é oferecer importantes informações nos diversos segmentos da cadeia produtiva da melancia, por isso, esperamos que seja bem aceito pelo público não só pelos esforços empreendidos para a sua consolidação, mas por entendermos que se trata de um instrumento que pode contribuir sobremaneira para uma produção respaldada na sustentabilidade, refletindo uma preocupação atual da sociedade e o compromisso com uma atividade agrícola de longo prazo.
A melancia Citrullus lanatus (Thunb.) Matsum & Nakai] pertence à família Cucurbitaceae, é cultivada em todo o mundo, sendo considerada cosmopolita. Tem uma expressiva importância no agronegócio brasileiro, sendo cultivada sob irrigação e em condições de sequeiro. Diferentemente do cultivo irrigado, que pode ocorrer durante o ano todo e se utiliza cultivares comercias, a produção em regime de sequeiro, aonde se utiliza os tipos locais apenas uma vez por ano, durante o período chuvoso, apresentam grande variabilidade quanto às características de aparência externa, cor da polpa, teor de açúcar, conservação pós-colheita, entre outras. 
O valor bruto da produção de melancia no Brasil, em 2006, foi em torno de R$ 533 milhões, considerando uma safra de 1.946.912 toneladas, em aproximadamente 93.000 hectares cultivados, bem como se subtraindo em 30% com perdas que ocorrem por diversas causas em produtos hortifrutícolas, e um preço médio nacional de R$ 0,27 por quilograma; sendo R$ 15,67 milhões obtidos com as exportações.
A atividade produtiva de melancia no Brasil apresenta um perfil predominante pela produção familiar por sua rusticidade, pelo menor investimento de capital e retorno em torno de 85 dias em relação às outras oleráceas.

Taxonomia, características botânicas e morfológicas

A cultura da melancia era conhecida dos egípcios há cerca de 2.000 anos a.C., e por causa da diversidade de formas silvestres, atualmente, é mais aceito que o gênero Citrullus tenha origem na África. Foi introduzida no continente americano pelos escravos e colonizadores europeus no século 16. A espécie se difundiu pelo mundo inteiro e é cultivada nas regiões tropicais e subtropicais do planeta. A variabilidade genética trazida do continente africano aliado ao processo de manejo da cultura na agricultura tradicional da região, tornou o Nordeste brasileiro um centro secundário de diversificação da melancia. 
O gênero Citrullus é classificado como parte da divisão Magnoliophyta, da classe Magnoliopsida, da subclasse Dilleniidae, da ordem Violales e da família Cucurbitaceae. No gênero Citrullus estão incluídas quatro espécies: Citrullus lanatus, C. colocynthis, C. ecirrhosus e C. rehmii.
A espécie Citrullus lanatus (Thunb.) Matsum e Nakai, inclui a melancia cultivada para consumo humano Citrullus lanatus, de ampla distribuição mundial, e Citrullus lanatus var. citroides, uma forma silvestre encontrada no sul da África e cultivada em outras partes do mundo, principalmente para a alimentação animal.

Aspectos morfológicos

A melancia é uma planta anual, herbácea, de hábito de crescimento rasteiro, com ramificações sarmentosas e pubescentes (Figura 1). O caule é constituído de ramos primários e secundários, que podem assumir disposição radial — ramos de tamanho similar, partindo da base da planta — ou axial — um ramo mais longo com derivações opostas e alternadas a cada nó. Os ramos primários são vigorosos e longos, podendo superar a 10 m nas raças crioulas. No entanto, em variedades comerciais, geralmente, o comprimento do ramo principal é menor que 4 m. As folhas têm disposição alternada e, geralmente, apresentam limbo com contorno triangular, recortado em três ou quatro pares de lóbulos, de 15-20 cm de comprimento e de margens arredondadas. Possuem gavinhas — folhas modificadas — que auxiliam na fixação da planta ao solo. A partir de cada nó se origina uma folha e uma gavinha, sendo que a partir do terceiro, cada nó também dá origem a flores. O sistema radicular é pivotante e mais desenvolvido no sentido horizontal, concentrando-se até 30 cm abaixo da superfície do solo. Sob condições de umidade excessiva do solo ou morte de parte do sistema radicular, os nós também podem originar raízes adventícias.

Foto: Rita de C. S. Dias.
Figura 1.Ramificações sarmentosas e pubescentes em uma variedade crioula de melancia.
Quanto à biologia reprodutiva, a melancia é monoica — flores masculinas e femininas separadas —, mas também ocorrem plantas andromonoicas (flores masculinas e hermafroditas) ou ginandromonoicas — flores masculinas, femininas e hermafroditas (Figura 2). No ápice da floração, normalmente, na segunda semana após o início da abertura das flores, há cerca de três a cinco flores masculinas para cada flor feminina. Estas e as hermafroditas possuem ovário súpero em formato similar a forma final do fruto.

Foto: Rita de C. S. Dias.
Figura 2. Flores de melancia masculinas (A), feminina (B) e hermafrodita (C). Aspectos gerais de folhas e flores de melancia: disposição alternada e limbo com contorno triangular, recortado em três ou quatro pares de lóbulos, com margens arredondadas: a) flores masculinas; b) femininas; c) hermafroditas.

  Durante a floração, as flores abrem entre 1 e 2 horas após o aparecimento do sol e se fecham no mesmo dia à tarde, para não mais abrirem, tendo ou não ocorrido a polinização. O pólen da melancia é pegajoso e as abelhas são os principais polinizadores. Elas são atraídas pelo néctar e pólen, e, ao visitarem as flores realizam polinização. O vento não é suficiente para transportar o pólen entre as flores. Sem o estímulo propiciado pela polinização, o fruto não se desenvolve. É necessário que pelo menos 1.000 grãos de pólen sejam depositados sobre o estigma para que se desenvolva um fruto perfeito. 
O fruto é uma baga indeiscente que varia quanto ao formato, ao tamanho, cor, espessura da casca, cor da polpa, cor e tamanho de sementes. As variedades de melancia cultivadas possuem frutos de diversos tamanhos — 1 kg a mais de 30 kg —, formas — circular, elíptica - larga e alongada —, cores da superfície externa — verde cana, verde-claro, verde-escuro, amarelo, com ou sem listras — e interna —vermelho, rosa, amarelo e branco — e inúmeros sabores.
A polpa é formada de tecido placental, que é a principal parte comestível do fruto. Este tecido tem a coloração vermelha por causa da presença de licopeno ou amarelada em consequência da presença de carotenos e xantofilas. Frutos de materiais silvestres possuem amargor acentuado da polpa — “flesh bitterness” — que é atribuído à presença de cucurbitacina, um triterpenoide tetracíclico oxigenado, que é raro nas atuais variedades cultivadas. A polpa da melancia quanto à textura é classificada em macia ou firme — ou crocante. As cultivares de polpa macia são muito apreciadas no mercado nacional. Entretanto, para o mercado de exportação, a preferência é por cultivares de polpa firme — muito observado nas cultivares triploides ou sem sementes.
As sementes são variadas na cor do tegumento — branca, creme, verde, vermelha, marrom-avermelhada, marrom e preta —, com presença ou ausência de manchas — cor secundária do tegumento —, tamanho variando de muito pequeno a muito grande. As cultivares Charleston Gray e Fairfax apresentam sementes que medem cerca de 1,3 cm de comprimento, enquanto que cv. Kodama apresenta sementes com cerca de 0,4 cm. A melancia, de forma geral, apresenta cerca de 200 a 800 sementes por fruto, que ficam embebidas na polpa. As cultivares triploides não apresentam sementes perfeitas ou apresentam um número reduzido, variando de 1 a 10, mas apenas rudimentos de sementes — “sementes brancas” —, que são comestíveis.

Composição nutricional e usos

Apesar de o uso predominante da melancia é o consumo do fruto in natura, na China e em outras regiões do Meio Oriente também se cultiva para consumir as sementes. A melancia, além de conter quantidades abundantes de antioxidante licopeno, é uma Foto excelente do aminoácido citrulina que estão facilmente disponíveis. O corpo humano usa a citrulina para produzir outro aminoácido importante, arginina, que tem um papel importante na divisão das células, para cicatrizar ferimentos e na eliminação de amônia do corpo.

A melancia é Foto de pró-vitamina A e das vitaminas C e do complexo B, além de sais minerais como cálcio, fósforo e ferro. Por ser muito hidratante — 90% de seu volume é água — e diurética, elimina resíduos do aparelho digestivo e funciona como laxante. Nas melancias de polpa vermelha, assumem importância o potássio, o magnésio, o fósforo e o cálcio, estando os demais elementos como sódio, manganês, zinco, cobre e ferro presentes em menor quantidade. Vale ressaltar que, por ter baixo valor calórico, a melancia pode ser especialmente recomendada para dietas de baixo valor energético.

As cucurbitáceas, principalmente a melancia, desempenham um importante papel na alimentação humana, especialmente nas regiões tropicais, onde o consumo é elevado. Ela é consumida quase exclusivamente in natura, mas, também, na forma de sucos, geleias, doces, molhos e em saladas. Em alguns países, se preparam picles com a casca dos frutos e, na China e em diversas regiões da Ásia e no Oriente Médio, se consomem também as sementes. As sementes das cucurbitáceas são consumidas em diversos países — C. pepo, no México e melancia, na China — e são ricas em gordura, proteína, tiamina, niacina, cálcio, fósforo, ferro e magnésio. Na Índia, faz-se pão de farinha de semente de melancia. Nas regiões áridas da África, são utilizadas como Foto de água desde tempos imemoriais. Na Rússia Meridional, uma cerveja tem suco de melancia como ingrediente. Outro uso é fazer doce com a parte branca, preparado da mesma forma que o doce de mamão verde.

Como uso medicinal, o consumo habitual ou periódico da melancia é muito importante para a saúde, em vários aspectos:

Seu suco, feito da polpa, ajuda a eliminar o ácido úrico, substância química que se acumula no organismo e que causa a gota, mais conhecida como reumatismo gotoso, responsável pela formação de cálculos renais — calcificação em forma de pedras nos rins. Atua, também, na limpeza do estômago e dos intestinos; é benéfico no controle da pressão alta. O uso do chá das sementes da melancia, secas e trituradas, também auxilia no tratamento da pressão alta.
É eficaz nos tratamentos de acidez estomacal, mais conhecida como queima ou azia; da inflamação das vias urinárias; dos gases e dores intestinais e da bronquite crônica.
É recomendada no tratamento da erisipela — inflamação aguda da pele —, quando o suco da casca e da polpa da melancia for aplicado sobre a parte afetada, em forma de cataplasma.
A melancia possui atividade antioxidante e anticancerígena — protege contra câncer de útero, próstata, seio, cólon, reto e pulmão.
A melancia, além de saciar a sede e hidratar, é pobre em calorias e pode auxiliar no emagrecimento. Segundo os naturopatas, deve ser consumida isoladamente. As suas fibras agem na regulação do trânsito intestinal, além de auxiliar o organismo a eliminar toxinas — desintoxicante —, colaborando para a redução do colesterol.

Geografia da produção

A melancia é uma cucurbitácea cultivada em quase todas as regiões tropicais, subtropicais e temperadas do mundo. A produção e a área cultivada, em termos mundiais, desta olerácea têm seguido uma tendência crescente no período de 1997 a 2004, com um incremento de 38,5% na área plantada e em 61,6% na produção. Aproximadamente 80% da produção mundial de melancia está concentrada em dez países. A China ocupa a liderança, seguida pela Turquia, Rússia, Irã e Brasil.
Os maiores rendimentos no cultivo de melancia foram obtidos pela Espanha, Coreia do Sul, Marrocos e Estados Unidos, variando de 44 t/ha a 31 t/ha. A produtividade do Brasil, mesmo considerando os dados do IBGE (2006), aproximadamente 21 t/ha, corresponde ao menor rendimento do grupo de países que lideram a produção de melancia. No entanto, em 2006, já apresentou a quarta maior área colhida (Tabela 1), o que reflete no volume total de hortaliças produzidas no Brasil.

Tabela 1. Área colhida (ha), rendimento (kg/ha) e produção (t) nos principais
Países
Área colhida
(ha)
Rendimento
kg/ha
Produção
(t)
China
2.314.000
30.777,9
71.220.000
Turquia
137.000

27.776,0
3.805.306 
Irã
131.455
24.794,9
3.259.411
Estados Unidos
55.200
31.139,9
1.718.920
*Brasil
180.641
218.664,6
31.505.133
Egito
62.000
24.193,5
1.500.000
México
42.867
22.612,5
969.332
Coréia do Sul
20.553
37.871,5
778.374
Espanha
16.200
44.290,1
717.500
Marrocos
18.835
37.811,8
712.185
Outros
906.724
-
14.416.232
Total
3.785.475
26.575,9
100.602.393
1 92.996 ha; 2 20.935 kg/ha; 3 1.946.912 t.
Fonte: FAOSTAT (2007) e IBGE (2006).


Distribuição geográfica da produção de melancia no Brasil

A melancia está entre as cinco mais importantes olerícolas cultivadas no Brasil. Sua área plantada em 2006 foi em torno de 93.000 ha e sua produção correspondeu a 1.946.912 toneladas. Ela está entre as principais cucurbitáceas cultivadas no Brasil apresentando, no período de 1996 a 2006, produtividades médias de 32 t/ha a 6 t/ha (Figura 3). Em 2006, destacaram-se com as mais elevadas produções os seguintes estados: Rio Grande do Sul, Bahia, Goiás, São Paulo, Tocantins, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Pará, sendo as regiões Sul e Nordeste, responsáveis por 34,8% e 28,8%, respectivamente, da produção nacional. O Nordeste brasileiro, historicamente, foi o maior produtor de melancia, mas a partir de 2001, a produção do Sul do Brasil obtém a dianteira (Figura 3). Um aspecto que contribuiu para isso, provavelmente foi o contínuo incremento na produtividade observado nesta região (Figura 4).

Figura 3. Produção (t) de melancia nas cinco regiões do Brasil de acordo com dados do IBGE, no período de 1996 a 2006.

 As regiões produtoras de melancia no Brasil guardam relação direta com a forma de cultivo: irrigado ou de sequeiro. Diferentemente do cultivo irrigado, a produção em regime de sequeiro, não utiliza insumos agrícolas, como adubos e defensivos químicos. O cultivo irrigado, apesar do diferencial positivo de ter disponibilidade de água todo o ano e ser possível a escolha da época do plantio e o controle da irrigação em função do ciclo da cultura, muitas vezes, apresentam áreas vizinhas cultivadas em diferentes fases — área plantadas recentemente a outra que já foi efetuada a colheita —, o que representa condições favoráveis para o desenvolvimento de pragas e doenças; isso também repercute no rendimento da melancia. Deve-se considerar, também, que as cultivares e os híbridos de melancia disponíveis no mercado brasileiro são, na sua maioria, de origem americana e suscetíveis às principais doenças e pragas. Entre as cultivares a mais plantada é a ‘Crimson Sweet’ e tipos parecidos, respondendo praticamente por todo o fornecimento ao mercado consumidor.

Figura 4 - Rendimento (kg/ha) da melancia obtido nas cinco regiões brasileiras de acordo com dados do IBGE, no período de 1996 a 2006.




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