quinta-feira, 21 de maio de 2020

PANCS: Araruta (Maranta arundinacea)


Araruta (Maranta arundinacea)

Em geral, não é utilizada como hortaliça e sim como matéria-prima para produção de fécula ou farinha, a não ser pelo uso esporádico de rizomas cozidos de uma variedade comumente chamada ararutão. Entretanto, devido à sua importância histórica e fragilidade genética, destaca-se assim a publicação dessa espécie nesta publicação.

Sua fécula foi muito usada no passado; hoje, porém, está em franco processo de desuso, quase extinção em algumas regiões, pela substituição por amidos de espécies com cadeia produtiva estabelecida como a mandioca e o milho. Por sua extrema rusticidade é planta com ampla faixa de distribuição, desde o Nordeste até o Sul do País, uma herbácea perene com até 1,5m de altura. Forma um intrincado complexo de pequenos caules rizomatosos junto ao sistema radicular, matéria-prima para extração da fécula ou da farinha.


Nomes comuns – Araruta e, para uma variedade específica, ararutão ou ralutão. Os indígenas denominam a fécula de aru-aru ou simplesmente aru.

Família botânica – Marantaceae.

Origem – Regiões tropicais da América do Sul, incluindo o Brasil.

Variedades – Existe variabilidade, sendo umas mais arredondadas, outras mais compridas, com formato de seta (especula-se sobre uma possível alusão ao nome em inglês arrowroot, que, por derivação, teria chegado à araruta). Existe a variedade ovo-de-pata, com rizomas pequenos (cerca de 2 a 3 cm) e arredondados. Há uma variedade denominada ararutão ou “ralutão”, provável derivação de ararutão, que na verdade é planta de outra espécie da família Marantaceae, a Canna edulis, comum em países andinos como a Bolívia e o Peru onde é chamada de “achira” e onde se consome seu polvilho, farinha ou mesmo os rizomas cozidos. Na prática, o que ocorre é a seleção e manutenção de variedades locais, não se observando a identificação sistematizada de variedades.

Clima e Solo – Pode ser cultivada em ampla faixa de condições ambientais, mas desenvolve-se melhor em regiões de clima quente e úmido, com temperaturas acima de 25ºC. Épocas secas e frias prejudicam o desenvolvimento da cultura, que tende a perder as folhas e entrar em dormência quando a temperatura cai abaixo de 15ºC ou quando cessam as chuvas. Em regiões com inverno ameno, o cultivo é viável somente a partir da primavera. Por outro lado, em regiões quentes e úmidas o ano inteiro, como em partes da Amazônia, que não apresentam frio ou seca definidos, as plantas não cessam o crescimento vegetativo, o que reduz a produção de rizomas. As melhores condições para o desenvolvimento da fase vegetativa da cultura são encontrados no Brasil central e nordeste, em virtude destes apresentarem um período de chuvas seguido por um período de seca, pois, favorece a translocação dos nutrientes das folhas, que secam completamente, para os rizomas.

Quanto ao solo, é uma planta muito rústica e bastante adaptada a diferentes tipos de solos, mas produz melhor em solos profundos, bem drenados, não compactados e com bom teor de matéria orgânica. Solos leves e arenosos facilitam a colheita.

Preparo do solo – Após aração e gradagem, efetuam-se o enleiramento e a adubação, sempre com atenção para a adoção de práticas conservacionistas. O plantio em leiras facilita sobremaneira a colheita se comparado ao plantio no solo nivelado.

Calagem e Adubação – Apesar da rusticidade da cultura, em solos empobrecidos responde à correção e à adubação. Quando necessário, efetuar a correção da acidez do solo com antecedência de 60 a 90 dias e aplicar a quantidade e o tipo de calcário com base na análise de solo, buscando pH entre 5,8 e 6,3. A adubação também deve ser baseada nos níveis de nutrientes observados na análise de solo, podendo-se utilizar a mandioca como planta de referência visto que não há recomendações específicas para araruta, ou seja, até 60 kg/ha de P2O5, 30 kg/ha de K2O e 20 kg/ ha de N, além de 15 ton/ha de esterco de curral curtido. Utiliza-se no plantio adubo fosfatado e parte do adubo nitrogenado e potássico, além da adubação orgânica. A adubação de cobertura deve ser feita entre 30 e 45 dias após o plantio, com fontes nitrogenadas na dosagem de 50 kg de N/ha e, conforme o manejo e a disponibilidade de nutrientes no solo, potássicas e com matéria orgânica.

Plantio – É feito por propágulos (porções dos caules rizomatosos) diretamente no local definitivo. Recomenda-se um mínimo de duas gemas (nós). Em geral, usa-se a parte central dos rizomas, mais robusta, para produção da fécula e as extremidades de rizomas vigorosos para o plantio. O espaçamento deve ser de 0,8 a 1,0 m entre as leiras e de 0,4 a 0,5 m entre plantas nas leiras. Pode-se plantar em linhas duplas, distantes 0,5 m entre si, tendo 0,8 a 1,0 m nas ruas (corredores entre linhas duplas). Há relatos do desenvolvimento espontâneo em meio ao “roçado” (lavoura), consorciado com feijão ou milho, isto é, deixando-se que se desenvolvam as plantas originadas a partir de pequenos rizomas ou de pedaços de rizomas deixados no solo no ciclo anterior, os quais permanecem dormentes no solo durante a estação seca, efetuando-se somente o raleio das plantas para estabelecer espaçamento adequado.

O cultivo pode ser realizado o ano inteiro em regiões tropicais e equatoriais, desde que haja umidade para seu desenvolvimento, sendo normalmente feito o plantio no início da estação chuvosa, dispensando a irrigação. Já em regiões sub-tropicais ou tropicais de altitude, o cultivo é restrito à época mais quente do ano (setembro-outubro a março-abril), permanecendo a cultura em dormência durante o período frio e/ou seco.

Tratos Culturais – Deve-se reduzir a competição com as plantas infestantes por meio de capinas manuais. Embora considerada tolerante à seca, deve-se irrigar conforme a necessidade, não havendo recomendações específicas para araruta. Em geral, é cultivada no período chuvoso, dispensando a irrigação. Apesar de sua rusticidade, pode sofrer um pouco com pragas desfolhadoras, havendo em geral fácil rebrota. Os nematoides do gênero Meloidogyne também podem causar pequenos danos aos rizomas.

Colheita e pós-colheita – A colheita tem início 6 a 7 meses após o plantio, manual com auxílio de enxadão ou semi-mecanizada com auxílio de aiveca. Após colhidos, os rizomasdevem ser lavados e preparados para o processamento. A produtividade pode superar 40 ton/ha e o rendimento do polvilho está em torno de 15 a 20%, portanto, obtém-se aproximadamente de 6 a 8 ton/ha de fécula.

O uso tradicional da araruta ocorre na forma de polvilho extraído dos rizomas. A fécula seca é usada para confecção de bolos, biscoitos, mingaus, doces, pudins. Também pode ser usada em substituição ao amido de milho, para engrossar molhos, cremes e sopas. É particularmente apreciada e procurada por suas características culinárias, sendo amido de ótima digestibilidade. Por sua leveza incomparável, os “biscoitos de araruta” derretem na boca. Também se pode extrair a farinha, menos nobre em paladar que a fécula, porém, mais rica e com maior rendimento na extração, em torno de 30 a 40%, prestando-se também para o fabrico de “quitandas”. É uma excelente opção para as pessoas que apresentam intolerância a produtos que contem glutém, como o trigo e a aveia.


Figuras 10 e 11: Araruta, parte aérea e rizomas


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