sábado, 21 de março de 2020

Custos e Rentabilidade na Cultura da Melancia



O cultivo da melancia do Brasil ocorre tanto nas grandes empresas agrícolas quanto na agricultura familiar. O primeiro engloba principalmente o polo Aracati/Mossoró/Açu, nos estados do Ceará e do Rio Grande do Norte, que já têm estabelecida as exportações de melão e procuram consolidar as exportações de melancia sem sementes, bem como, produtores de Tocantins e Goiás. Os produtores familiares, que representam a maioria, cultivam a melancia sob o regime de chuva, nas pequenas áreas de perímetros irrigados, às margens de rios, bem como em pequenas propriedades utilizando água de poços. Os produtores familiares representam a maioria dos envolvidos no cultivo da melancia no Brasil.

Na produção familiar, em geral, os equipamentos agrícolas são rudimentares ou adaptados, a estrutura e as decisões são baseadas em experiências, sujeitas a alto grau de incertezas. Em consequência, os resultados obtidos são, geralmente, imprevisíveis. Não existe flexibilidade na escolha do tipo de cultura que, geralmente, é definida com base no histórico familiar ou regional. A produtividade é inferior à média em função da baixa ou pouca utilização da tecnologia disponível, seja por falta de capital ou de conhecimento. No entanto, os custos também são menores e estão sujeitos à grande variabilidade de preço, e a instabilidade da oferta resulta do fato de que a produção é dependente de variações que fogem do controle do produtor rural, como clima, problemas fitossanitários, entre outros.

A produtividade média no Brasil, em 2006 variou de 3,7 t/ha a 31,1 t/ha em função das características do sistema de produção, se em condições de sequeiro ou em área irrigada, utilização ou não de tecnologia. Portanto, a determinação dos custos, coeficientes técnicos, rendimentos e rentabilidade desses sistemas de produção é muito difícil em função da diversidade dos tipos de cultivos. Assim, será tratado, como exemplo, o que ocorre no Perímetro Irrigado de Curaçá, localizado no Município de Juazeiro, BA, representando a produção de melancia irrigada no Submédio do Vale do São Francisco com adoção de um bom grau tecnológico, relacionando-o ao praticado no Baixo Jaguaribe, CE.

Em 2007, Curaçá, dos perímetros irrigados no Submédio Vale do São Francisco, foi o que mais cultivou melancia, ocupando 466 hectares, representando 22,3% da sua área plantada.

Coeficientes técnicos

Na Tabela 1, são apresentadas as quantidades e valores de horas de trabalho de máquina e da mão-de-obra necessários ao cultivo de 1 hectare de melancia. Os parâmetros apresentados são baseados naqueles praticados por produtores no Submédio Vale do São Francisco, que adotam um bom grau de tecnologia e visam à comercialização da produção no mercado interno. O sistema abrange adubação, de acordo com análise de solo, cultivo de melancia de frutos grandes, cv. Crimson Sweet, espaçamento de 3 m x 0,60 m - densidade: 5.555 plantas/há -; uso de fertirrigação e comercialização da produção no mercado local, por meio de um atacadista. Entretanto, existem fatores que podem variar de uma região para outra, conforme o sistema de produção adotado pelo produtor e até conforme as condições climáticas e fitossanitárias de cada ano agrícola.

Nas Figuras 1 e 2, observa-se o percentual das diferentes etapas da produção de 1 hectare de melancia em dois sistemas de produção em área irrigada no Nordeste brasileiro. Os custos de produção das empresas situadas no Baixo Jaguaribe, CE, que operam com a utilização de alto nível tecnológico e alto custo administrativo - fertirrigação, híbridos, assistência técnica, etc. - determinam um aumento no custo de produção, mas que é parcialmente compensado com o incremento da produtividade. Apesar de os custos de produção serem obtidos em épocas diferentes, observando-se as Figuras 1 e 2, constata-se que os custos com aquisição de sementes, equipamentos de irrigação, fertilizantes e custos administrativos são superiores na produção de melancia no Baixo Jaguaribe, CE, comparativamente aos do Submédio Vale do São Francisco. Observa-se que as principais diferenças estão nos itens fertilizantes - 11% maior no CE -, defensivos - 17% maior na BA -, sementes - 7% maior no CE -, equipamentos de irrigação - 2% maior no CE - e nos custos administrativos - 4% maior no CE -, enquanto nas pequenas empresas da Bahia, os custos de gerenciamento muitas vezes não são computados, pois o mesmo é feito pelo próprio produtor e em outros custos, como juros de crédito e impostos - 4% maior no CE.

Tabela. 1. Coeficientes técnicos para o plantio de 1 ha de melancia irrigada - Perímetro Irrigado de Curaçá, Município de Juazeiro, BA.
Descrição
Especificação
Valor Unit.
Quantidade
Total
%
1- Insumos (*)
3.947,20
61,91
1.1. Fertilizantes
1.490,50
23,39
Calcário dolomítico
R$/tonelada
200,00
1,00
200,00
3,14
MAP
R$/kg
1,12
300,00
336,00
5,27
Uréia
R$/kg
1,80
200,00
360,00
5,65
Cloreto de potássio
R$/kg
1,93
250,00
482,50
7,57
Micronutrientes de solo
R$/Kg
2,80
40,00
112,00
1,76
1.2. Fitossanitários
1.990,70
31,22
Espalhante adesivo
R$/litro
6,30
1,00
6,30
0,10
1Fungicidas
R$/kg ou R$/litro
113,13
383,40
6,01
1inseticidas
R$/kg ou R$/litro
132,33
1.601,00
25,11
1.3. Outros
466,00
7,33
Análise de solo
36,00
1,00
36,00
0,56
Sementes de variedade
R$/Kg
150,00
1,00
150,00
2,35
Água (**)
R$/1000 m3
4,00
70,00
280,00
4,39
2 - Operações
2.039,00
31,98
2.1. Preparo do solo
549,00
8,61
Aração, gradagem, calagem, sulcamento
HM
68,00
8,00
544,00

8,53
Calagem
Homem-dia
20,00
0,25
5,00
0,08
2.2. Plantio
240,00
3,77
Abertura das covas
Homem-dia
20,00
5,00
100,00
1,57
Plantio e replantio
Homem-dia
20,00
2,00
40,00
0,63
Adubação
Homem-dia
20,00
5,00
100,00
1,57
2.3. Tratos culturais
890,00
13,96
Desbaste de plantas
Homem-dia
20,00
2,00
40,00
0,63
Capinas
Homem-dia
20,00
15,00
300,00
4,70
Adubação em cobertura
Homem-dia
20,00
5,00
100,00
1,57
Desbaste dos frutos
Homem-dia
20,00
10,00
200,00
3,14
Pulverização
Homem-dia
25,00
10,00
250,00
3,92
2.4. Irrigação
120,00
1,88
Irrigação
Homem-dia
20,00
6,00
120,00
1,88
2.5. Colheita/Classificação
240,00
3,76
Colheita/Classificação
Homem-dia
20,00
12,00
240,00
3,76
Subtotal Conta de Cultivo
5.986,20
93,89
3 - 2Custos de Administração
179,59

2,82
Gerenciamento/Adm
3,0%
179,59
2,82
4 - Outros Custos
210,00
3,29
4.1. Impostos/Taxas
30,00
0,47
4.2. Custo da Terra
R$/ha/mês
40,00
3,00
120,00
1,88
4.3. Depreciação do Sistema de Irrigação
R$/ha/mês
20,00
3,00
60,00
0,94
Custo Total (R$/ha)
6.375,79
100,00
Produtividade média/safra
35.000 kg/ha
5. Rentabilidade/SAFRA
5.1. Preços médios de dezembro/2009
CEASA/PE
0,42
R$/kg
CEASA/BA/EBAL S.A
0,45
R$/kg
Média do atacado
0,43
R$/kg
3Preço de mercado pago ao produtor
52,87% do atacado
0,23
R$/kg
Valor Bruto da Produção (R$/ha)
8.050,00
0,23
R$/kg
Despesa
6.375,79
0,18
R$/kg
Receita líquida
1.674,21
0,05
Rentabilidade
20,79%
Ponto de equilíbrio
0,18 R$/kg
27.723,5
Kg/ha

HM = Hora Máquina
Análise de rentabilidade (cv. Crimson Sweet; espaçamento: 3 m x 0,60 m; densidade: 5.555 plantas/ha; tipo de irrigação: gotejamento.
1Valores médios dos fungicidas/inseticidas, que variaram de R$ 22,00 a R$ 350,00 por quilograma ou litro. 2Apesar da maioria dos produtores do Submédio Vale do São Francisco utilizarem uma parte da mão-de-obra familiar e ter a administração própria, esses valores foram considerados na análise para facilitar a extrapolação dos dados.
3Valores médios praticados em 2009: atacado (CEASAS BA e PE)= R$ 0,43/kg e no Mercado do Produtor de Juazeiro-BA = R$ 0,23/kg .
(*) Insumos: Valores Médios. É necessário fazer análise de solo.
(**) Água: os custos com a água incluem as despesas com manutenção e energia elétrica.
Atualizado em Dezembro/2009 em Valores Nominais. Na ocasião, o dólar médio norte-americano estava cotado em R$ 1,74.
Fonte: Dados Embrapa Semiárido

Fonte: Adaptado da Secretaria de Agricultura do Estado do Ceará (2009).

Figura 1. Participação (%) das diferentes etapas da produção de um hectare de melancia no Baixo Jaguaribe, CE, 2005.


Fonte: Dados Embrapa Semiárido..

Figura 2. Participação (%) das diferentes etapas da produção de um hectare de melancia no Perímetro Irrigado de Curaçá, Juazeiro, BA, 2009.


Melancia: aumentar a produtividade para ter maior rentabilidade

Os custos de produção para os produtores de melancia no Submédio do Vale do São Francisco, que utilizam a irrigação localizada e se especializaram nesta olerácea, é de R$ 6.375,79/ha. Deste total, 94% correspondem às despesas de produção e cerca de 6% são com outros custos inerentes ao empreendimento agrícola irrigado — impostos, custo da terra, depreciação do sistema de irrigação e administração. No entanto, é muito comum que o próprio produtor seja também o administrador, não gaste com assistência técnica. Nesta região, é muito comum a melancia ser vendida a granel e acondicionada nos caminhões pelo comprador na propriedade.

Por exemplo, no sistema de produção especificado na Tabela 1, em 2009, o preço médio da comercialização no atacado praticado nas Ceasas da Bahia e Pernambuco foi de R$ 0,43/kg e no Mercado do Produtor de Juazeiro, BA, R$ 0,23/kg. Considerando uma produtividade média de 35 t/ha, a receita bruta média obtida com a comercialização da produção no Mercado do Produtor de Juazeiro, BA correspondeu a R$ 8.050,00. Nesse mesmo ano, o custo de produção no referido perímetro foi de R$ 6.375,79/há, a receita líquida de R$ 1.674,21/ha e uma rentabilidade de 20,79%. Considerando que a receita líquida é baixa, R$ 0,05/kg, faz-se necessário aperfeiçoar o Sistema de Produção de Melancia para se obter incremento na produtividade e conseguir a sustentabilidade do agronegócio. Produtividades inferiores a 27,7 t/ha, em condições irrigadas do Submédio do Vale do São Francisco, não cobrem os custos totais do cultivo de melancia. Assim, o aumento do rendimento deverá ser o alvo dos produtores, especialmente, os da produção familiar, pois o seu cultivo é relativamente mais simples que outras oleráceas, com custo de produção mais acessível quando comparado, por exemplo, à cebola, tomate e melão.

A rentabilidade no Baixo Jaguaribe e no Submédio do Vale do São Francisco foram, respectivamente, 11,5% e 20,79%. Provavelmente, a utilização da mão-de-obra familiar e os menores custos com equipamentos de irrigação determinam uma redução no custo total da produção. A maior utilização da fertirrigação e o incremento da densidade de plantio, 5.555 plantas/há, têm proporcionado um aumento no rendimento médio e rentabilidade da melancia no Submédio Vale do São Francisco.


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