sábado, 13 de janeiro de 2018

Manejo orgânico da Cebola



Os sistemas orgânicos de produção agropecuária buscam a otimização do uso dos recursos naturais e socieconômicos disponíveis, mantendo a integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica, a maximização dos benefícios sociais, a minimização da dependência de energia não renovável e a proteção do meio ambiente, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos, a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados, de radiações ionizantes, em armazenamento, distribuição e comercialização (Lei 10.831 de 31/12/2003).
Nos sistemas orgânicos de produção, o equilíbrio ecológico entre as espécies vegetais e entre os micro e macrorganismos é de fundamental importância para manter as populações de pragas e de agentes causadores de doenças em níveis que não causem danos econômicos às culturas comerciais.
O produtor orgânico deve se preocupar prioritariamente com a diversificação da paisagem geral de sua propriedade de forma a restabelecer o equilíbrio entre todos os seres vivos da cadeia alimentar, desde microrganismos até animais maiores. Desta forma procura-se atingir a sustentabilidade da unidade produtiva no tempo e no espaço. Para isto, deve-se, na medida do possível, incorporar ao manejo da propriedade características de ecossistemas naturais, como:
  • reciclagem de nutrientes;
  • uso de fontes renováveis de energia;
  • manutenção das relações biológicas que ocorrem naturalmente;
  • uso de materiais de origem natural, evitando àqueles oriundos de fora do sistema;
  • estabelecimento de padrões de cultivos apropriados com espécies de plantas adaptadas às condições ecológicas da propriedade;
  • ênfase na conservação do solo, água, energia e recursos biológicos.
O condicionamento climático é conseguido com a delimitação dos talhões de cultivo por cordões de contorno ou cercas vivas. A cerca viva funciona como um quebra-vento, reduzindo o impacto dos ventos frios ou quentes e a movimentação de algumas pragas e doenças. Cria-se uma seqüência de microclimas, com maior ou menor sombreamento, umidade e temperatura, garantindo eficiência na fotossíntese, evitando ventos fortes e temperaturas extremas. Os microclimas são aproveitados para a acomodação de diferentes espécies vegetais e animais, inclusive de pragas e de seus inimigos naturais. Por isso, a cerca viva funciona também como um tampão fitossanitário e um componente da biodiversidade da propriedade orgânica.
A composição destas barreiras pode ser com espécies de interesse econômico, como por exemplo o café, espécies frutíferas, madeiras, etc. ou com outros fins como o capim napier, o guandu, a leucena, o hibiscus, o malvavisco, a primavera e a flor do mel (girassol mexicano) que tornam-se fontes de biomassa para as áreas de produção devido a necessidade de podas freqüentes.
É interessante que os cordões de contorno funcionem como reservas biológicas, abrigando agentes polinizadores, inimigos naturais de pragas e outros insetos benéficos.
Para funcionarem desta forma estas barreiras precisam ser botanicamente diversificadas, existindo várias possibilidades de combinação, que em última análise depende da realidade de cada região, criatividade e interesse do produtor.
O manejo recomendado para a cebola em sistema orgânico de produção segue os princípios agroecológicos já citados acima e algumas práticas específicas para a produção orgânica:
  • Alternância de culturas por meio da sucessão vegetal e rotação - essa prática permitirá explorar os nutrientes do solo de maneira mais racional, evitando seu esgotamento, uma vez que se pode alternar culturas mais exigentes com outras menos exigentes em nutrientes (rústicas), além de explorar seções diferentes do solo pela diferença na estrutura radicular. Uma boa estratégia para produção de cebola é rotacioná-la com plantas de enraizamento denso, boa produção de palhada, elevada capacidade de extração de nutrientes do solo e fixação de nitrogênio, que pode ser conseguido combinando espécies de gramíneas (melhoram a estrutura física do solo) e leguminosas (fixam o nitrogênio biologicamente).
  • Deve-se preferir espécies de crescimento rápido, com boa cobertura do solo e  com grande produção de biomassa vegetal. Geralmente, a incorporação é realizada na época do florescimento, período de maior produção de biomassa e fixação de N. No verão, as espécies de adubos verdes mais utilizadas são: mucuna preta, Crotalaria juncea, Crotalaria spectabilis, feijão-de-porco, girassol, milheto e sorgo forrageiro. No inverno, as principais espécies utilizadas são: aveia preta, nabo forrageiro, ervilhaca e ervilha forrageira;
  • Aplicação de adubos orgânicos, na forma de estercos animais, compostos ou outras fontes orgânicas recomendadas pelas normas técnicas de produção - quando utilizar adubos oriundos de fontes externas à propriedade ou de sistemas convencionais de criação, recomenda-se a compostagem para eliminar possíveis problemas de contaminação química e/ou microbiológica.
  • Adubações auxiliares com adubos minerais de baixa solubilidade são utilizadas para a correção temporária de deficiências. Em relação a fosfatagem, deve-se utilizar fontes de fósforo permitidas para o cultivo orgânico, que são os termofosfatos, fosfatos naturais e fosfatos reativos. Todas as fontes de macro e micronutrientes possíveis de serem utilizadas em cultivos orgânicos encontram-se descritas na instrução normativa 064 do Ministério da Agricultura. Adubações suplementares podem ser feitas com compostos a base de farelos e microorganismos eficientes (EM), tipo bokashi e com biofertilizantes líquidos via solo ou foliar;
  • Manejo de ervas espontâneas - como forma de proteção do solo, ciclagem de nutrientes e preservação de equilíbrio biológico da área de produção, sugere-se o manejo da vegetação espontânea que permita o convívio sem danos com a cultura de interesse econômico.
  • Recomenda-se a capina em faixas, de forma a evitar a presença das ervas próximas à cultura e no caso do plantio em canteiro, recomenda-se capinas nos momentos críticos apenas nos leitos de semeadura, preservando-se a vegetação dos carreadores ou apenas roçando-a quando estiver dificultando os tratos culturais.
  • O uso de cobertura morta em sistemas orgânicos é desejável, tanto para manter o equilíbrio e as boas características do solo, quanto para manter sob controle o aparecimento de plantas espontâneas. Assim, é recomendável usar cobertura morta nas entrelinhas logo após o transplante das mudas. Como material de cobertura podem ser utilizados diversos tipos de capins secos triturados (sem sementes), palha de arroz ou outros resíduos vegetais de alta relação C:N, para retardar a decomposição e prolongar os efeitos da cobertura morta, em camada de aproximadamente 5 cm;
  • Manejo de pragas e doenças - em agricultura orgânica o que se busca é o equilíbrio ecológico, por meio das inúmeras técnicas descritas anteriormente. Portanto, antes de se buscar métodos alternativos de controle, deve-se lembrar que o emprego dos princípios e conceitos convencionais do Manejo Integrado de Pragas e Doenças (MIPD) podem auxiliar de forma determinante as práticas de manejo e controle em sistemas orgânicos: diversificação, manejo do solo e nutrição vegetal, utilização de cultivares adequadas e adaptadas às condições de solo e clima da região, consorciação e rotação, o cultivo em faixas ou bordadura, a antecipação ou o retardamento do plantio, do cultivo e da colheita, cultivo de plantas armadilhas, etc.
  A família botânica das Alliaceaes é composta por várias espécies com destaque para a cebola (Allium cepa) e o alho. É consumida por quase todos os povos, sendo a produção e comercialização distribuídas em todo o mundo. Além da importância sócio-econômica para Santa Catarina (maior produtor do país), a cebola é rica em quercetina, fitoquímico antioxidante, que melhora a circulação e regula a pressão sanguinea e o colesterol. Por ser consumida na forma de salada crua ou cozida ligeiramente e, principalmente como condimento, é essencial que seja produzida no sistema orgânico. A cebola é produzida no Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil, com colheita e comercialização peculiares em cada uma das regiões. Sendo normal o andamento das diversas safras, o país está abastecido durante todo o ano. Apesar disso, no período de setembro a novembro, abastecido pelo Nordeste do Brasil, o cultivo orgânico de cebola precoce no Litoral, é uma boa opção de renda para os produtores, além de acrescentar qualidade e agregar valor ao produto. A susceptibilidade às doenças e pragas tornam a cebola muito dependente de insumos (fertilizantes químicos e agrotóxicos) encarecendo o custo de produção e, o que é pior, contaminando o meio ambiente e causando sérios riscos à saúde do produtor e consumidor. Resultados de pesquisa obtidos pela Epagri, através da Estação Experimental de Urussanga, comprovaram a viabilidade técnica do cultivo orgânico de cebola e, o que é melhor, com ótima qualidade e com menor custo de produção.
Recomendações técnicas
.Escolha correta da área e análise do solo: deve-se evitar áreas encharcadas e, já cultivadas com outras espécies da mesma família (alho) nos últimos dois anos. A análise do solo deve ser realizada com antecedência para que o técnico possa fazer a recomendação adequada da correção da acidez e adubação.
.Cultivares e épocas de plantio: as cultivares plantadas em Santa Catarina podem ser agrupadas, de acordo com o ciclo, em precoces e médias. Ciclo precoce – são semeadas em abril/maio e transplantadas em junho/julho, dependendo do local e da altitude; são menos exigentes quanto ao comprimento do dia e não resistem ao armazenamento prolongado. As cultivares indicadas são: Epagri 363-Superprecoce, Empasc 352-Bola Precoce, Baia Periforme, Aurora, Régia, Primavera e Madrugada. Ciclo médio – são semeadas em maio/junho e transplantadas em agosto/setembro, dependendo do local e da altitude; formam bulbos e amadurecem em dias mais longos e resistem bem ao armazenamento. As cultivares indicadas são: Empasc 355-Juporanga e Epagri 362-Crioula Alto Vale. Os plantios antecipados ou tardios proporcionam produção de bulbos florescidos ou pequenos, respectivamente, determinando o fracasso da lavoura. 
.Produção de mudas: após o preparo do canteiro deve-se adubá-lo preferencialmente com 5,0 kg/m2 de composto orgânico ou 3,0 kg/mde esterco de gado ou ainda 1,5 kg/mesterco de aves, curtidos. A semeadura a lanço é a mais utilizada; pode ser feita também em linhas riscadas transversalmente ao comprimento do canteiro, distanciadas de 10 cm entre si, onde as sementes são distribuídas uniformemente nos sulcos de 1 a 1,5 cm de profundidade. A quantidade de sementes utilizada é de 2 a 3 g/m2 de canteiro. A cobertura pode ser feita com 2 cm de composto orgânico ou pó-de-serra bem curtido ou ainda casca de arroz. Deve-se irrigar sempre que for necessário para manter úmida a camada superficial do solo. 
.Preparo do solo: recomenda-se adotar o plantio direto ou o cultivo mínimo, abrindo-se sulcos em torno de 10cm de largura para plantio das mudas de cebola, mantendo-se a cobertura do solo entre linhas (adubos verdes ou plantas espontâneas). São boas alternativas a semeadura de aveia preta no outono e o consórcio milho/mucuna no verão. Outra opção é o transplante das mudas realizado diretamente sobre a palhada. 
.Adubação de plantio: a adubação orgânica de plantio deve ser aplicada com base na análise do solo e nos nutrientes do adubo orgânico. Caso seja necessário complementar a adubação, recomenda-se fosfato natural aplicado com antecedência e, cinzas de madeira, como fontes de fósforo e potássio, respectivamente.
.Plantio e espaçamento: a época de transplante das mudas depende de cada cultivar, porque cada uma tem suas próprias exigências de comprimento do dia e temperatura em cada região, em função da latitude e da época de plantio. O plantio das mudas é feito quando estas atingem, em média, o diâmetro de 4 a 6 mm no pseudocaule (espessura do lápis). Caso não haja possibilidade de transplantar na época recomendada, deve-se utilizar as mudas menores para os plantios antecipados e as maiores para os plantios tardios. Utiliza-se as mudas menores nos plantios antes da época indicada para que as plantas tenham tempo suficiente para atingirem o tamanho adequado e, assim formarem bulbos graúdos. Por outro lado, utiliza-se mudas maiores nos plantios tardios para desfavorecer o engrossamento do talo e, em conseqüência, o apodrecimento dos bulbos logo após a colheita. O espaçamento varia de 0,5 a 0,6 m entre fileiras por 10 a 15 cm entre plantas.
.Capinas, adubação de cobertura e manejo de plantas espontâneas: o período crítico de competição com plantas espontâneas é de até 30 dias após o transplante. A primeira capina, bem com a adubação de cobertura, se necessário, devem ser feitas até 45 dias após o transplante. A incorporação deve ser feita a 20 cm das linhas de plantio, mantendo-se parcialmente a cobertura (aveia, mucuna, plantas espontâneas e outras) nas entrelinhas. A adubação de cobertura pode ser complementada com os biofertilizantes. 
.Irrigação: o sistema radicular da cebola é superficial e fasciculado com 70% das raízes entre 5 a 20 cm da superfície do solo. A fase mais crítica é na formação do bulbos.Deve-se suspender a irrigação, normalmente por aspersão, por volta de duas a três semanas antes da colheita para evitar a entrada da água no pseudocaule e para facilitar a maturação, melhorando as condições de cura e de armazenamento dos bulbos.
.Manejo de doenças e pragas: as principais doenças no Litoral são: sapeco ou queima-das-pontas e a mancha-púrpura. O sapeco (Figura 1) na fase de produção de mudas e no plantio definitivo da cebola e também a cebolinha verde, pode ser provocada por diversos fungosdeficiência hídrica, desequilíbrio nutricional, fitotoxidez, ozônio e, indiretamente, pelos patógenos do solo. A maior severidade da doença está ligada às mudas no estágio inicial, pois nesta fase qualquer redução de área foliar retarda o desenvolvimento da planta. A mancha-púrpura é causada pelo fungo Alternaria porri . Danos mecânicos, deficiência hídrica ou alta infestação de tripes favorecem a ocorrência desta doença, que ocorre principalmente no final do ciclo da cultura. Dentre as pragas, o tripes ou piolho (Thrips tabaci) podem causar danos econômicos e ainda favorecer a entrada de doenças. Se a temperatura aumentar e ocorrer estiagens, o tripes pode causar sérios danos por meio da raspagem e sucção da seiva das plantas. Com o aumento do ataque ocorre o amarelecimento, o retorcimento e a seca dos ponteiros das plantas e, como conseqüência, diminuição do tamanho dos bulbos, favorecendo a entrada de doenças. O manejo de doenças e pragas após o transplante das mudas inicia-se preventivamente evitando-se terrenos com drenagem deficiente e sujeitos à neblina. As injúrias causadas nas plantas, mecânica ou por tripes, devem ser evitadas, pois podem proporcionar uma "porta de entrada" para fungos e bactérias. A irrigação desfavorece a praga. No manejo da principal doença que ocorre no canteiro (sapeco), recomenda-se a aplicação de cinzas de madeira (50 g/m2) ou diluído em água a 10% em regas antes do orvalho da manhã evaporar. Outra opção é a pulverização com extrato de própolis (0,1%). A calda bordalesa (0,3%) também é eficiente. No plantio definitivo, além de medidas preventivas recomenda-se pulverizações, preventivamente a cada 7 a 15 dias com calda bordalesa (0,5%). Se necessário e, somente na fase de plantio definitivo, recomenda-se manejar o tripes pulverizando-se com calda sulfocálcica à 3% (fase adulta), obedecendo o intervalo de aplicação de 15 dias entre as duas caldas. 
.Rotação de culturas: recomenda-se a rotação de culturas com diversas espécies, com exceção do alho que é da mesma família botânica. Resultados de pesquisa obtidos na Estação Experimental de Urussanga mostram a eficiência dessa prática no aumento da produtividade de cebola. Adubos verdes tais como aveia, mucuna, consórcio milho/mucuna, coquetel de adubos verdes (ervilhaca + nabo forrageiro + aveia) e outras, são boas opções para sistemas de rotação e ainda possibilitam o cultivo mínimo da cebola. 
.Colheita e cura: a cebola é colhida quando ocorre o tombamento ou estalo da planta (Figura 2), devido ao murchamento do pseudocaule. Iniciar a colheita quando houver mais de 10% de plantas tombadas. Se o tombamento não ocorrer naturalmente pode-se provocar o tombamento da folhagem com rolo de madeira. O processo de cura pode ser natural ou artificial e consiste na secagem das películas externas e do pseudocaule (pescoço). A cura natural deve ser iniciada no campo, por um período de três a dez dias, dependendo do clima. Deixam-se os bulbos, em molhos sobre o chão, arrumados em fileiras com as folhas de uns cobrindo os outros, para protegê-los da insolação direta e, evitar o aparecimento da pigmentação verde e queimaduras.
. Classificação e embalagem: após a cura é feito o corte das ramas a cerca de 1 cm acima do bulbo, sendo então classificados conforme o seu diâmetro. As cebolas devem ser comercializadas em embalagens novas, limpas e secas (sacos com 20 kg de bulbos), que não transmitam odor ou sabor estranho ao produto.